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“Três momentos até me encantar com a obra de Caio Fernando Abreu”, por Dorgival Fernandes

Caio Fernando Abreu é hoje um pop star da internet. Frases suas, tiradas de contexto, e frases não suas, mas atribuídas a ele, desfilam com força e glamour pelas redes sociais, atribuindo-lhe um tom de escritor de autoajuda, coisa que ele nunca foi e nem fez, ferindo-se assim a sua memória e o seu legado literário.

Tive três momentos aproximais até me encontrar, de fato, com a obra de Caio. O primeiro momento foi imperceptível e na mediação, ao ler o livro de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Caio foi o revisor desse livro e há quem diga que tal revisão foi uma reescrita do livro. Damos tão pouco crédito e atenção a revisores!

O segundo foi uma entrevista de Caio ao Jô Soares e foi marcado por tremenda identificação, fascínio e amedrontamento: ele tinha AIDS e eu tinha pavor dela; ele era escritor e eu um apaixonado por literatura; ele era fá de Clarice Lispector e por uma noite foi o seu Quixote e o seu Cristo e eu já era fascinado pela Lispector.

O terceiro momento foi academicamente providencial. Precisava de um termo para dar sentido ao título da minha tese de doutorado e há dias o procurava. Na biblioteca de uma escola, enquanto esperava alunos para entrevista-los, numa olhada rápida no seu acervo, me deparei com o termo estampado no título de um livro do Caio: Inventário do Ir-remediável, e a minha tese foi intitulada Ir-remediável campo de sonhos de futuro.

Caio Fernando Abreu – Foto: Juvenal Pereira/Sesc Rio

Caio nasceu no Rio Grande do Sul, em 1948, com o sol em Virgem e o ascendente em Libra, viveu sem fronteiras intelectuais, literárias, amorosas, religiosas. Era da família, dos amigos, da astrologia, ioga, chás, bares, bebidas; era um homem mundano em todos os sentidos, essencialmente no sentido de ser do mundo. Adorava ser estrangeiro, viver no estranhamento no Brasil e na Europa. Foi escritor (contista, cronista, romancista), jornalista, ator, teatrólogo, místico e um viajante dos espaços e da existência, tendo uma vida inquieta e inquietante assentada na busca de um amor grande e eterno que lhe apaziguasse a alma. Tinha adoração por cantoras e cinema. Da literatura, lendo ou escrevendo, era um devoto e dizia ter nascido escritor, pois ao ser alfabetizado aos 06 anos já começara a escrever. Foi um missivista compulsivo e através da escrita de cartas, se desenhava, se elaborava e fazia as pazes com Deus e com os seus demônios.

Filho de um militar-leitor e de uma professora, foi estimulado pelos pais à leitura e se tornou um leitor voraz. Amou, odiou, gargalhou, sofreu, chorou, gozou, namorou e se apaixonou por moças e rapazes, cativou e cultivou amigos e amigas para quem escrevia frequentemente longas missivas. Adorava gente, fumar e cultivar flores e ao ser perguntado sobre o que seria caso não fosse escritor, respondeu sem hesitar: jardineiro. Na literatura teve uma grande musa: Clarice Lispector, e uma musa-padroeira: Virginia Woolf.


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Viveu com paixão, intensidade e furor, cavava a existência e escrevia existindo, por isso a sua obra foi uma vida-escrita, ou uma escrita-vida, e sua vida foi uma obra-colagem de cunho existencialista e ficcionista, como foi também a sua obra literária. Assim, viveu de buscas e ousadias, de pouca calmaria e muitas tempestades; enfim, quando encontrou o grande amor, esse durou o tempo de uma gestação. A paz, só a encontrou no contato direto com a morte, ao receber o diagnóstico positivo de AIDS.

Doente, se mudou de São Paulo para Porto Alegre, voltou a morar com seus familiares e os amou; pedalou muito pelas ruas da cidade, cultivou roseiras e girassóis e escreveu compulsivamente, criando, revisando e reeditando os seus escritos, até que, finalmente, cansado de enfrentar a vida, enfrentou a morte e aceitou seu convite para um abraço e uma dança.

Não sei se dançou um tango ou uma valsa, mas sei que foi ao som de um sax, como ele queria, com passos serenos e suaves, como eu também quero. Essa dança aconteceu no dia 25 de fevereiro de 1995 e acredito que no último minuto da dança ele tenha se dito a frase que escreveu na conclusão do seu conto Os dragões não conhecem o paraíso: “Dorme, só existe o sonho…”.


Dorgival Fernandes é natural de João Pessoa, mas radicado em Fortaleza. É pedagogo, mestre em Educação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), doutor pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Curte música, literatura, filosofia, tomar cerveja e papear com os amigos. É dos que preferem a lua ao sol.

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