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Grupo de artistas de São Luís lança fanzine para circular arte fora da ‘lógica algorítmica’

O desassossego perante uma sociedade cada vez mais algorítmica e menos tátil, especialmente nas artes e nas culturas, motivou um grupo de artistas de São Luís a produzir um fanzine que – tamanho não é documento! – tem potencial para sacudir certas estruturas da capital maranhense sem receio de ferir egos e, principalmente, sem ter que depender apenas das estratégias “adoecedoras” de engajamento das redes sociais. Segundo o escritor e compositor Felipe Costa Cruz, editor do projeto, o Jirau nasceu do “extinto de sobrevivência” de quem se nega a se “diminuir para caber nas redes” e a “negociar propostas estéticas para satisfazer demandas algorítmicas”. No editorial da Edição Zero, o recado é claro e direto: “Nosso assalto é tríplice: crítica cultural – arte – política. Crítica, palavra tabu na cena (ui!) alternativa. Mas vai ter. E como. Já antecipando o bom-mocismo amedrontado e cheio de dedos dos pele-fina, declaramos: evitar a crítica estagna a cultura. Ponto.”

Edição Zero do zine Jirau, lançada em São Luís – Crédito: Luis Fernando Mifô

A Edição Zero do Jirau, lançada em maio, chama atenção pelo esmero no projeto gráfico, do qual estão à frente o artista gráfico de rua Chermom Gomes; a arquiteta e designer Brena Coimbra; o cantor, compositor e também artista gráfico Tiago Máci; e o próprio Felipe Costa Cruz, que aparece nas imagens queimando pedaços de seda para o poema “A última ponta”, de Klícia, e manchando com café pedaços de papel de pão para o poema “O sonho da padoca”, de Tiago Máci. O conselho editorial fica por conta do poeta Paulo Freire. A capa e a contracapa são do ilustrador e cartunista Luis Fernando Mifô, único da turma que não reside mais em São Luís (está em João Pessoa).

As colaborações na estreia, entre poemas, ilustrações, quadrinhos, críticas, crônicas e reportagens, reúne um elenco de figuras como Cesar Teixeira, Manaíra Pádua, Isaac Poematron, Lara Moura, Daniel Rodrigues, Klícia e Mateus Max, além de textos e ilustrações dos próprios componentes do zine (Felipe Costa Cruz, Paulo Freire, Tiago Máci e Chermom). É preciso destacar também a logo do Jirau, criada pelo artista visual Tarsis Aires, inspirada na iconografia dos indígenas da Baixada Maranhense entre os anos 775-1045, encontrada durante escavações de uma equipe liderada pelo arqueólogo Alexandre Guida Navarro.

Felipe Costa Cruz, Brena Coimbra, Tiago Máci, Paulo Freire e Chermom – Arquivos pessoais

Num papo com a Larica Magazine (vídeo abaixo), Felipe revela que a “dinâmica adoecedora” das redes sociais também desestimulou a sua própria produção artística. Músico, compositor, escritor e poeta da cena contemporânea na Ilha, Costa Cruz, embora pareça um sujeito introspectivo, responde com inquietação sem filtros às transformações culturais moldadas pelas pequenas telas. E foi dessa inquietação que nasceu a proposta de fortalecer o gosto pela escrita e pela leitura em mídia física, compartilhada de mão em mão e com os pés na estrada, por meio de um ousado fanzine, formato “de guerrilha” cuja essência seminal é contestar a cultura dominante.

– A gente vai criando ilhas de resistência. A Larica Magazine é uma dessas ilhas de resistência. É um espaço que está dentro da internet, mas está resistindo dentro da internet. Fora da internet a gente tem a possibilidade de fazer formatos como fanzine, um formato de guerrilha, barato e acessível. Eu estava lendo uns intelectuais que pensaram São Luís nos últimos 20 anos e me veio essa ideia. Por que não fazer um zine que pense a São Luís de agora, a cena da arte independente de São Luís de agora, a cena cultural de São Luís em geral? Por que não criar esse fanzine pra gente publicar nossos textos, desenhos, pensamentos, pra gente criar nossa própria literatura?

NO VÍDEO A SEGUIR, Felipe fala sobre a origem do Jirau, a equipe que compõe o núcleo, o processo artesanal de produção, a logística da divulgação e de que forma o zine se propõe a estar aberto para colaborações.

Embora busque resgatar uma tradição analógica, é importante para sua divulgação que ele tenha perfil em rede social. Por isso, segue o Jirau no Instagram: @zinejirau

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