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“Wolf” utiliza a disforia de espécie como gatilho para transcendermos

Em algum momento você já deve ter lido ou ouvido falar que somos produtos do meio em que vivemos, ou seja, o convívio em sociedade nos molda e orienta a nossa percepção do que, em tese, nós somos e de como devemos nos comportar. Seria uma espécie de “teoria do Tarzan”: se você for criado por macacos em uma ‘sociedade’ de macacos, acreditará que é um macaco e viverá como tal. Acontece que esse pensamento ignora certas transcendências que permeiam nossa vida e com as quais estamos lidando cada vez mais naturalmente. Por exemplo: transcender a estrutura biológica para além da definição binária de sexos, como é o caso das pessoas transgênero, desafia certas premissas sociais. Uma pessoa transgênero, cedo ou tarde, transcenderá para além do corpo em que nasceu, não importa em que contexto social ela viva, não importa o quanto tentem convencê-la das “verdades” sociais e religiosas.

Em “Wolf” (2021), o jovem Jacob (George MacKay) é internado pelos pais em uma clínica psiquiátrica para pessoas diagnosticadas com “disforia de espécie”, um distúrbio mental em que elas acreditam terem nascido no corpo da espécie errada. Jacob, por exemplo, está convencido de que é um lobo – caminha de quatro “patas”, uiva, rosna, se alimenta de carne crua etc. Na clínica, conhece dezenas de outros pacientes que se comportam tal qual os respectivos animais que eles acreditam que são, a exemplo do simpático pastor alemão (Fionn O’Shea); o emotivo esquilo (Darragh Shannon); a introspectiva aranha (Amy Macken) e a inteligente panda (Karise Yansen). Enquanto isso, os jovens passam por um perverso tratamento nas mãos do Dr. Mann (Paddy Considine), chamado de “zookeeper”, que tenta convencê-los, à base de muita tortura, que eles são seres humanos e não animais.

Lily-Rose Depp é Wildcat em “Wolf” – Foto: divulgação
Lily-Rose Depp é Wildcat em “Wolf” – Foto: divulgação

O comportamento selvagem de Jacob desafia teorias sociais, religiosas e psicológicas sobre identidade (temática mais evidente no filme). Ele parece ser o único ali que, de fato, está no corpo errado, como se, de fato, fosse um lobo em pele de gente.

A performance corporal de George MacKay caminhando de quatro “patas”, rosnando e uivando à lua chama atenção. À noite, o jovem paciente se contorce na cama tentando abafar o uivo para não chamar a atenção do zookeeper. Quem também entrega um ótimo papel ao emular os movimentos de uma felina e expressar as angústias de um ser humano em conflito com a própria identidade é Lily-Rose Depp (Wildcat), par romântico de Jacob na clínica.


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A diretora italiana Nathalie Biancheri (Nocturnal) acertou a mão na condução de “Wolf” para não deixá-lo demasiado minimalista na estética, embora o roteiro tenha dado um fim repentino e blasé ao filme. Contudo, menos importa o arremate, pois “Wolf” funciona bem mesmo é como um gatilho para uma série de reflexões. A perversidade civilizatória do homem em sociedade está muito bem representada na figura do Dr. Mann, cujo tratamento à base de torturas psicológicas e físicas para “reconverter” os pacientes beira o sadismo, apoiando-se na ideia de que os seres humanos são uma espécie superior pelo simples fato de que, segundo ele, é a única que possui consciência.

Fionn O’Shea interpreta um jovem que acredita ser um cachorro pastor alemão; e Lola Petticrew é uma “garota papagaio” – Foto: divulgação
Fionn O’Shea (o cachorro) e Lola Petticrew (a papagaia) em “Wolf” – Foto: divulgação

Quando os demais pacientes da clínica ensaiam um motim (uma referência a “A Revolução dos Bichos”?) após ouvirem os gritos de Jacob sendo torturado no porão, Dr. Mann é chamado às pressas para controlá-los e é nesse momento que os papeis se invertem. O psiquiatra explode num rompante de fúria animalesca que se difere da fúria instintiva dos animais porque a dele demonstra prazer em zombar e humilhar os pacientes. Nesta sequência, a jovem que acredita ser um papagaio (Lola Petticrew) é coagida aos berros pelo Dr. Mann a dizer “eu sou uma garota”, em uma das cenas tensas do filme.

Jacob, por sua vez, não importa o quanto seja torturado numa jaula, é a figura que já transcendeu para além do corpo e das convenções sociais. Ele jamais irá se curvar à perversidade de Dr. Mann para dizer o que o médico deseja ouvir: que ele não é um lobo. Jacob está tão certo de que é um lobo, que nem mesmo os apelos da Wildcat na cena final do filme evitaram sua fuga floresta adentro.

“Wolf” eleva o tema “identidade’ a um patamar mais abrangente usando a “disforia de espécie” como metáfora para os desafios de sermos o que queremos ou sentimos ser. Ao mesmo tempo, lança questões sobre as perspectivas psicológica e psiquiátrica do que é “normal” e “anormal” na sociedade. Infelizmente, a consequência de transcender sobre conceitos e convenções sociais ultrapassados e intolerantes será, quase sempre, ser sentenciado(a) à loucura. Talvez por isso “Wolf” também tenha me feito lembrar de “Um Estranho no Ninho” (1975), do Milos Forman, assunto para outra resenha.


Luis Fernando Mifô é radialista, redator, cartunista e ilustrador em João Pessoa. No meio disso ainda escreve poemas e está preparando seu primeiro livro. Gosta de ser ariano, embora não acredite em signos. É quase cinéfilo, mas não maratona nada. Toca um pouco de guitarra, mas não sabe solar. Também não sabe nadar e já escapou de morrer afogado duas vezes quando era ousado demais no tempo da inocência. Ah, é o fundador e editor da Larica Magazine.

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