Quando terminamos de ler “O Poema é mais belo que o título”, segundo livro de poesia da cearense Nágila de Sousa Freitas (31), publicado em 2020 pela Editora Arribaçã, tivemos muita dificuldade para selecionar apenas sete poemas que consideramos arrebatadores para postar aqui, dada a quantidade de poemas que nos arrebataram ao longo de 95 páginas. Para facilitar nossas escolhas, definimos um critério: poemas que dialogam com o momento que estamos vivendo.
Mas, afinal, o que seria um poema arrebatador? Em síntese, um poema arrebatador é um tapa na cara seguido de vertigem. E parece que Nágila não sabe ser meio termo.
Gostamos quando o ofício de escrever não é apenas um afago na alma, mas também um dedo na ferida. E mesmo quando Nágila parece aliviar a pressão sobre a fissura, é inegável que estamos diante de uma ótima poeta – coisa de quem, apesar de jovem, já domina o ofício de escrever em favor de um existencialismo inescapável.
Como lavradores “ante a máquina que corta a palavra”, nós peneiramos 7 poemas entre tantos grandes poemas de Nágila no livro “O Poema é mais belo que o título”.

Deusa do tempo
Sou o ponteiro do relógio,
trabalhadora das engrenagens
dos movimentos
do complexo material de um gozo.
Mãe de todos os homens.
A passada
que é instante
bate e lança a minha ação.
Elites e plebes,
filósofos e poetas
julgam o meu mais fiel servo
um deus maior soberano,
quando é, porém,
minha sentença aos homens.
O tempo é quem suporta
minha existência,
sou eu começo e fim.
Das estações,
nenhum fruto poderia render
sem o derramar do meu suor.
Erraram ao acreditar
que o tempo passa correndo
pelos quatro cantos do mundo.
Sem pernas como poderia ele correr?
É que quando olham para o tempo
na verdade estão olhando para mim.
Porque o tempo não passa
o tempo não anda
o tempo não corre,
o tempo apenas reveste meu corpo.
Eu sou deusa e o tempo é servo,
mas quando tenho que ser menor
sou para marcar e não para ser marcada:
O cronômetro do tempo
sou eu.
Tem
po
Na parede rejuvenescida de tinta
as folhas do calendário vão se vencendo
enquanto as galhas das árvores vão secando.
O relógio atrasado fica parado
enquanto o meu trabalho é adiantado
na produção de uma nova pilha.
Meus sentidos gozam enquanto o tempo os goram.
Tudo que tem tempo tem pó.
Se sobraram alguns minutos para viver, não sei…
Quase nada vivi além do momento
que como todo o tempo vai acabando agora.
Ao infante poeta
Avista uma flor e vê um segredo,
(ao invés de pétalas)
corre para desvendá-la.
Quando o dia percebe raiar,
pega lápis e folha para deixar
seu tesouro ao mundo.
No campo fértil
a inutilidade das empilhadas metáforas
é o destino de quem sonha com grandes colheitas.
O sentimento que devora o papel;
a semente que desabrocha no peito;
a carta de amor não enviada;
a inspiração que vem dos ares.
A verbiagem pusilânime do infante poeta
encontra alívio no fragor da miragem de si mesmo.
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Sujeito de mil caras
Aquele sujeito fala demais!
Conta histórias para crianças e velhos,
descreve beijos com a mesma saliva
de quem tem uma boca.
Galanteador de muitos amores,
solitário em si mesmo
som da voz alheia.
Sujeito de muitas artes,
por efeito, abstrato.
Bipolaridade de um rosto distraído.
A cotidianidade da vida,
o passo reto e o lapso;
a mulherzinha no beco
e a dama no shopping.
O drama da existência
e as futilidades da vida real.
Ainda assim,
nenhuma de suas caras
lhe deu o devido caráter de um sujeito livre.
Nunca aprendeu viver sozinho,
é hipocondríaco, mentiroso
e subordinado por um poeta.
A morte do sujeito de mil caras
Depois de anos
dependendo de uma muleta
o sujeito de mil caras
viajou para bem longe
sem dela necessitar.
Do quarto para cozinha
usava muleta,
agora que longe se foi,
deixou a muleta parada.
Certo dia riscou-se
numa pedra de mármore,
coroada com flores de todas as cores,
a morte do velho de mil caras.
Mil palmos de terra
foram jogados sobre suas caras.
Todos os seus humores
foram guardados dentro
de uma caixa lacrada
– momento que concebeu
a independência de seu eu.
O velho não era mais velho
nem novo nem alegre nem triste:
era mais nada.
Suas histórias dramáticas
seus relatos civis
suas ideais conflitantes
suas lembranças
seu verberar de todos os dias
seus resmungos e suas dores
seus ódios e seus amores
suas mentiras e suas verdades
seus discursos patéticos
eloquentes
romanescos
exaustivos…
Morre o rei e o plebeu.
Não era mais algoz
nem fleuma nem ronco.
O sujeito de mil caras,
agora não muito,
pó de inspiração soprado.
A única herança deixada
foi a sua velha companheira muleta,
que com a sua morte
tornou-se tão dependente dele,
como um dia ele foi dela.
O vendedor de algodão doce
Um trabalhador antes de homem
para quem a dignidade bordou de suor o boné.
Herdeiro de pai não identificado.
Filho mais velho de mãe solteira.
Juntou a fome com a pressa
e venceu a utopia da espera.
Saiu de casa pouco antes dos dezesseis.
Perdeu a crença de que tudo na vida tem um propósito,
quando começou ganhar a vida se quisesse vivê-la.
Não tinha sonhos dormindo tampouco acordado.
Era vexante, abelhudo, falante de boa pinta.
Não tinha tempo para filosofias, só para contar.
Era real, antes de gente – uma moeda.
Tão falido quanto seu país.
Sua árvore de algodão doce esticava raiz
pelas ruas de nomes estranhos que nunca ouvira falar.
— O melhor vendedor de algodão doce do mundo!
Diziam os fregueses de poucos trocados.
Quem o via passar não imaginava
que de tanta doçura sobraria apenas o algodão.
No chão maculado de lixo e fedor,
na passagem estreita de uma rua sem saída,
estava jogado ao chão o vendedor de algodão.
Sem culpa, sem honra.
Na mistura amarga de sangue e chumbo.
Num dia comum em que saber a data era tão difícil
quanto adivinhar o seu destino,
não imaginava, pobre menino, que dali em diante
nunca mais precisaria ganhar a vida.
Felicidade
Sou flacidamente larga de felicidade.
Não vejo felicidade maior do que esta
que persegue e se apossa de mim,
faz-se minha, uma felicidade única.
Não há felicidade sem consciência
e a consciência não prospera sem a clareza da visão.
Porque a felicidade é um estado de consciência plena
e de sua plenitude é que podemos ver
das mais belas as mais feias das coisas,
tão reais como elas são.
De tal modo, minha consciência
é límpida em alcance de transparência.
Sou tão feliz quanto à consciência
que reconhece a minha infelicidade.