
Primeiro é importante observar que Lilith é um mito da tradição judaica e não da tradição cristã. Considerada a primeira mulher de Adão, ela reivindicou seu direito a ficar por cima na relação sexual. Por isso foi expulsa do Paraíso, virou “demônio” e, então, Deus criou Eva como a parceira de Adão. Eva, submissa e obediente a Deus e ao seu companheiro.
Lilith é, portanto, o arquétipo da mulher marginal, excluída porque não se submeteu às regras patriarcais, aquelas que nos impediram de vivenciar nossos instintos e desejos sexuais de forma saudável. Ela era a senhora dos seus próprios desejos, mulher livre, independente, corajosa e que sabia dizer “não” às situações de abuso, de poder e de desrespeito. Portanto, foi expulsa do Paraíso, considerada perigosa e colocada na categoria de “demônio” pela métrica patriarcal daqueles primórdios.
A única mulher que é aceita na sociedade patriarcal é a mulher obediente, submissa, inferiorizada e impura (Eva). Sim, impura, porque seus instintos sexuais estão sob o domínio do masculino distorcido. Lilith, essa mulher criada do mesmo barro e saliva e em condições de igualdade, reivindicou seus direitos sexuais não se submetendo a Adão. Por isso foi reprimida (expulsa do Paraíso) no inconsciente de todas as mulheres. Sua sexualidade e seu direito ao prazer foram negados.

Na sociedade patriarcal, toda mulher que assume seus desejos sexuais é considerada prostituta/meretriz, portanto está à margem da sociedade. Não é possível negar por muito tempo uma natureza instintiva, pois todo conteúdo reprimido faz força para emergir à consciência. Como foi possível negar por tanto tempo a sexualidade da mulher? Como a mulher pode ousar gostar de sexo numa sociedade em que essa prática virou tabu?
Essa situação coletiva causou estagnação no desenvolvimento psíquico das mulheres, por isso muitas de nós não conseguem atingir o orgasmo. Muitas de nós nem sabem o que é orgasmo devido a tamanha repressão sexual. Além disso, podem sofrer uma gama de somatizações na genitália e no aparelho reprodutivo.
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Nossa natureza instintiva precisa ser reconhecida e, portanto, integrada. A sexualidade feminina precisa ser vivida sem culpa e com prazer. Fomos agraciadas com o clitóris, um órgão do prazer que há apenas vinte anos foi descoberto com sua função e potencialidade. Nós somos dotadas de um órgão poderoso capaz de prolongar e manter nosso prazer mesmo depois do gozo. Como foi possível esconder isso das mulheres por tanto tempo?
Toda mulher para ser, de fato, plena é necessário integrar na consciência o arquétipo da Lilith, reconhecendo seu prazer e a posse de seu corpo. Integrar a sexualidade negada é deixar de estar à margem, é passar para o centro, alinhada com a sua essência, com a sua natureza instintiva.

Rosângela Macedo é carioca, mas mora integrada à natureza na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Há quase 15 anos trabalha com imersões para mulheres resgatando a consciência feminina. Atende como psicóloga clínica há quase 30 anos e atua também como intérprete de almas. É formada em Psicologia Médica, Transpessoal e Junguiana. Seu valor inegociável é a liberdade de ser quem e o que quiser.