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Taylor Swift encontra Lupicínio: Clara Madeira em flashes

Felipe Costa Cruz

Salão da Academia Ludovicense de Letras, 2026. O frio é rançoso no auditório. Alguns poetas e muitas pessoas que escrevem poesia aguardam, num semissilêncio murmurante. A jovem de cabelo leonino e olhar lânguido sobe no palco decidida, alinha o violão na perna direita e ataca o si menor com sétima. Precisão e Controle. Canta: Nunca/Nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar, nem mesmo assim/As pazes contigo eu farei. Desse momento em diante, nada se ouve além da voz e do violão de Clara Madeira. Mais tarde, após o show, quinze daqueles escritores da plateia escreverão alguns dos seus melhores poemas.

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Da arquibancada do Engenhão, podia-se ver uma criatura minúscula no palco gigantesco, vestida de dourado. Sua pantomima é projetada em telões monumentais. Milhares e milhares de pessoas – em sua esmagadora maioria, jovens – cantam numa espécie de transe a canção Don’t Blame Me. Clara Madeira fecha os olhos. Saiu de São Luís do Maranhão apenas para curtir o megashow de Taylor Swift no Rio de Janeiro. Foi o dia mais quente do ano e, na Cidade Maravilhosa, a sensação térmica era de 40°C. Abraça o amigo de escola e sente o som. Don’t blame me/love made me crazy/If it doesn’t, you ain’t doin’ it right. Linda entre as coisas lindas. O baixista dá uma derrapada. Clara faz careta. Mesmo nesse momento, um pouco em êxtase e quase bêbada, a musicista profissional não desliga. Precisão e Controle. Balança a cabeça e canta mais alto. Não é uma roubada de nota que vai estragar aquele momento. Dois mil & 24 foi um ano bom.

Clara interpreta “Transamazônico” no Festival Samuel Barrêto – Foto: Sandro Vagner

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Era sua primeira experiência em festivais, ramo nichado que o artista usa majoritariamente para tirar um troco. Palco grande. Nervosa, mas segura de si, a intérprete entra em cena. Clara Madeira defende a composição Sede, obra-prima irretocável de Amorim, no Samuel Barreto II. Não dá outra: terceiro lugar. Toca a mesma canção no FECANT, onde Adriana Calcanhotto abre o evento. Mas… quem lembra? Até hoje o pessoal do Pará se recorda mesmo é da garota aloirada que canta como se domando feras.

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O pessoal da pequenina Pedreiras (MA) olhou embasbacado a jovem de juba cacheada subir resoluta no palco, usando uma roupa transparente, ousada até para os padrões de grandes cidades. Mudos, ouviram quase sobressaltados o riff pesado que abre Transamazônico, parceria nossa feita especialmente para arrebatar os incautos. Nos igarapés, nos guarás, na fauna inglória do meu canto nu/Implode, aflora em berço esplêndido/Um grito ao outro/Apelo é pouco. Existe raiva nesse canto. Raiva, nunca descontrole. Raiva, mas precisão. Rigor. A interpretação foi explosiva. A música leva o troféu de melhor letra. Ok. Esperávamos mais do III Festival Samuel Barrêto. Uma injustiça Clara não ter ganhado melhor intérprete.

Clara Madeira com as parceiras Nicole Terrestre e Luma Pietra – Fotos: Alan Rodrigues

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Estamos em 2023 e a água quente envolve o corpo de Clara. Ela ama a sensação de ficar embaixo d’água. É aconchegante. Nada um pouco abrindo os braços e pernas, no estilo cachorrinho. Feito criança, joga umas braçadas. “Eu posso te dar carinho”. Os versos vêm rápidos à mente, embalados pela melodia resolutiva e doce. “Não. Não ‘te dar’. Sai da métrica. ‘Eu posso te entregar carinho’. Isso. Bem melhor”. Mergulha fundo. Flutua.

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Brilho (2025) nasce assim, de uma vez. Clara compõe majoritariamente no violão, às vezes ao piano. Brilho veio nas seis cordas. Arguta, explora o registro mais agudo do instrumento, deixando a mão direita perto do cavalete – o que confere um timbre metálico, de colorido brilhante – enquanto a mão esquerda desenha os acordes na região do braço mais próxima ao corpo do instrumento. Meses depois, o produtor Mateus Penha traduzirá todas essas ideias, acrescentando bandolins e címbalos, num diálogo fluido entre instrumental, letra e vocal. A música traz referências explícitas a Tom (é impossível ser feliz sozinho, mas nunca acreditei em ti, Jobim) e implícitas, talvez involuntárias, a Maiakóvski. O russo escreveu: “Brilhar para sempre/brilhar como um farol/brilhar com brilho eterno/gente é para brilhar/que tudo o mais vá para o inferno/este é o meu slogan – e o do sol”. Clarinha (assim os amigos a chamam) canetou: Me afeta com teu afeto/Que eu só quero poder brilhar mais. Bossa mais que nova lançada em 2025. Brilho: um pedaço de estrela cintilando no ouvido.

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A fúria de Clara Madeira – Foto: Hannah Letícia

Dois mil & 22? Impossível não notar aquela garota de elegância discreta andando com um headphone rosa e um livro de Nelson Rodrigues debaixo do braço. Do violão, saía de tudo. Sofrências de todas as épocas e estilos. Clarinha já tinha lançado duas músicas a essa altura do campeonato, cultivando um nome respeitado na cena independente de São Luís. “Além da Poesia” (2020), primeira canção gravada e lançada profissionalmente pela compositora, já carrega os traços de elegância e doçura que marcam sua obra, mas ainda lhe falta a paleta de cores sóbrias que caracterizará seus trabalhos mais maduros, onde uma melancolia sarcástica amalgama letras e melodias numa densidade poética pessoal e cálida. “Me dá uma luz” (2022), R&B sensual produzido pelo sagaz JotaSF, brinca de um jeito malemolente com o beat eletrônico, numa faixa que poderia facilmente ser trilha da novela juvenil Malhação, tal a energia inocente e sacana da batida e da letra. A balada “Vermelho é a cor do Perigo” (2024), composição deste que vos escreve (portanto suspeitíssimo para falar a respeito), equilibra todas as facetas de Clara Madeira – que conseguiria imprimir uma dinâmica certeira até em “atirei o pau no gato”. A faixa, feat. com a potente Luma Pietra, foi apropriada com tal maestria pelas duas que às vezes esqueço ter sido escrita por mim e ouço prazerosamente, como se delas fosse. Cantaram juntas no Festival BR-135 de 2025. Foi lindo.

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Estúdio Nébula. Na penumbra, diante do microfone, Clara se concentra e grava. É Flerte, seu primeiro álbum, com previsão de lançamento para este ano da graça de 2026. Vai ter rock, forró, bolero, beleza. Precisão e Controle. Desejo. Delírio. Flerte: sinto o gosto quente das músicas no palato. Em breve tocando no seu radinho. Aguarde.


Clara Madeira e Felipe Costa Cruz – Foto: Brena Coimbra

Clara Madeira nasceu na Ilha de São Luís do Maranhão, em 1998. Isso faz dela uma GenZ? Não interessa. Clara tem “a idade das pedras”, como Vinícius de Moraes afirmou sobre o precoce Chico Buarque. Multifuncional e frenética, carrega no currículo o Coral Jovem do Teatro João do Vale, uma (quase) graduação em Música na UFMA e formação em Piano Erudito pela EMEM. Tocava na noite antes dos 18 e sabe Lupicínio de cor e salteado, cantando fossa songs como “Nervos de Aço” e “Nunca” com a mesma desenvoltura com que faz versões de Marina Sena, Carol Biazin e Taylor Swift. A canção Só um Segundo, gravada pelo Leoti em 2016 e por Luccas Costa em 2019, foi composta quando a musicista tinha apenas 16. Começou muito cedo na dor e delícia da arte, portanto. Entrevistada pela turma da Sociedade do Copo em 2024, esclarece, com mais exatidão: “a primeira música que eu compus foi quando eu tinha 14 anos, se chamava “Tradução”, e eu usei os primeiros acordes que aprendi: D, Em e A.”

Para além das músicas lançadas no Spotify, o caráter fragmentado da produção artística contemporânea também se faz presente nos lançamentos de Clara. Ouvidos mais curiosos e atentos podem colher pérolas nos seus vídeos feitos para o Conexão Cultural, disponíveis no YouTube. Sede, por exemplo, está por lá, numa versão intimista, caseira. Vale conferir.


LINKS:

Canal do YouTube de Clara Madeira: https://www.youtube.com/@AnaClaraMadeira
Instagram: @aclaramadeira

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