
Algumas vezes penso que tudo podia ser explicado usando cores. Quando toco a nota Lá, posso dizer até que vejo a cor rosa. Já quando escuto um Dó, certeza que é azul. Comentei uma vez sobre isso com um dos muitos professores de música que já traumatizei. Na época ele respondeu algo sobre deixar isso de lado porque existem regras e tentar inovar só iria dar trabalho para outras pessoas, isso se eu chegasse a fazer parte de uma banda. Concordando ou não, felizmente ou não, não cheguei nessa etapa, por isso meu contrabaixo teve uma aposentadoria prematura, muito por falta de empenho da minha parte ou falta de talento, por mais que eu não seja tão fã dessa palavra.
E “O Apanhador…” nisso tudo? Bem! Acredito que é possível saber muito sobre alguém através dos seus livros preferidos. Esse é o meu. É daqueles que você vai amar muito ou odiar com todas as forças, não tem meio termo. Muito por eu sempre querer indicar ele é que eu fiz a primeira leitura na época certa, estava no ensino médio, sem rumo nem direção. De um jeito não tão sujo, me senti como Holden, um adolescente deprimido, revoltado e, alguns dizem, mentiroso.
Se você está perdido enfrentando dias cinzas ou gosta, pelo menos um pouco, de adentrar no psicológico de um personagem, pode gostar de conhecer “O Apanhador no Campo de Centeio”, do escritor norte-americano J.D. Salinger (1919 – 2010). É a necessidade que sentimos de salvar as outras pessoas, como uma projeção sobre aquele que um dia fomos antes de termos sidos atingidos por alguém ou algum acontecimento que teve a capacidade de fragmentar aquilo que tínhamos de puro para oferecer. Sobre o protagonista Holden ser mentiroso, eu não concordo tanto. Vejo ele como um inventor, alguém que precisava criar para aguentar os dias. Quem escreve tem disso.

Enquanto só, precisei e sempre vou precisar de personagens para preencher meus vazios – ou será para esvaziar uma mente cheia? Não sei, fica ao seu critério. O leitor é sempre um cúmplice. Posso jogar sangue na tela e só você saber. Garanto que provavelmente não vai ser uma leitura demorada, não só pela pouca quantidade de páginas, mas também pela estrutura do enredo com capítulos curtos. E por ser em primeira pessoa, parece que de algum jeito você e ele são a mesma criatura ou, como dizem os mais jovens, dividem o mesmo neurônio. Meu humor é tão peculiar e deprimente quanto o dele. Eu já quis salvar alguém, já tive o desejo de que existisse alguém para me salvar e ao mesmo tempo já quis me jogar do abismo – aliás, isso me fez lembrar de uma banda que gosto muito, talvez seja papo para outro dia.
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Talvez eu não tenha falado tanto sobre o personagem ou sobre suas aventuras quanto eu deveria, por não querer estragar a mágica do leitor tendo contato direto com as páginas. Também preciso admitir que escrever sobre uma leitura é cada dia me permitir errar, pois eu sei tão pouco e só assim vou aprendendo. Eu erro o tempo todo, trocando as palavras e suas ordens e comendo vírgulas. Agora você não deve esquecer que livros parados são como deixar personagens mortos. Até para dizer que você detestou, tem que conhecer. Pelo menos eu provei do pior e do melhor para conseguir argumentar os motivos que me fizeram (ou não) gostar de alguém. Seja lá qual for sua opção, eu vou adorar saber. Se não se arriscar nele, deixo a provocação: qual livro devo conhecer para saber sobre você?

Phi Pereira mora em Santo André, no interior de São Paulo, é estudante de Psicologia, leitora compulsiva e desde 1997 cria amigos imaginários, escreve e erra de direção. Também possui um perfil no Instagram (em construção) com o objetivo de compartilhar pensamentos sobre assuntos aleatórios e específicos, com viés na psicologia, filosofia, música, livros e afins.