
Frequentemente tenho chorado na frente de estranhos em noites de boemia. Bastam-me o arroubo, o gatilho e a embriaguez para que eu me desmanche lírico na vazante. Desde já peço aos amigos mais íntimos que não se aflijam com a minha condição mental. Estou plenamente são como um isqueiro barato consciente do seu fim; e tenho sido sincero comigo mesmo como uma rocha acumulando lições com as porradas do mar. A questão imperativa aqui é que, graças à minha nova terapeuta, tenho me tornado cada vez mais afeito às extravagâncias do meu ego e fatalmente entregue aos ímpetos da minha frágil natureza sem nenhum constrangimento. Choro mesmo. Na cara dura. Atento ou distraído. Diante de deus ou do diabo. Tão à flor da pele que qualquer beijo de comédia romântica da Netflix me faz transbordar. Aos adeptos da astrologia, admito que sou ariano — e talvez agora algo se justifique de antemão. Mas seja qual for a razão das minhas recaídas acidentais, o fato é que tenho chorado com tanta frequência e naturalidade que até me recomendaram tatuar uma lágrima abaixo do olho esquerdo, este com grau de astigmatismo mais severo (se ao menos eu ficasse charmoso como Wade Walker em “Cry-Baby”, toparia essa ousada intervenção artística na minha combalida face).
Uma vez uma velha amiga com predisposição ao sadismo me filmou chorando copiosamente na mesa de um bar — ambiente mais propício para derrocadas emocionais depois da varanda do meu apartamento ouvindo música italiana. Dias depois, alegadamente por acidente, esta cena piegas que não perde em nada para Marlon Brando em “Uma Rua Chamada Pecado” acabou vazando. Resignado, dei de ombros e nem esquentei os chifres. E mais: hoje em dia até gargalho do papelão e ainda ofereço a quem interessar possa esse bom conselho: otário é quem não chora!
Lembro-me de uma noite fria de março em que debulhei pra valer no Guanabara lotado, voltando pra casa apavorado pela possibilidade de perder um grande amor para o deus do tempo. A vida janela afora se prolongava turva enquanto dentro do ônibus o passageiro da poltrona ao lado tentava me cantar ignorando minha situação deplorável. Na sua última investida antes de desembarcar em Santa Luzia, ele me surpreendeu ao exaltar — vejam vocês! — a beleza das minhas mãos, coisa que ninguém havia feito até então. “São lindas! Me liga!”, disse apressado enquanto me entregava um bilhete com um número de telefone. Educadamente eu recebi o recado amarrotado, agradeci e voltei a chorar com uma das mãos apoiada na janela. De lá pra cá adquiri a estranha mania de investigar meticulosamente as mãos de quem me afaga ou me apedreja.
Dias atrás, determinado a suturar o peito dilacerado por um pé na bunda, tomei o porre mais indecoroso — porém edificante — de uns bons anos pra cá. No entanto, prudentemente, eu cometi essa carraspana absolutamente sozinho, na varanda do meu apartamento, sem sequer um cão de rua testemunhando o fatídico episódio. Digo… havia a secretária eletrônica.
— Alexa, música italiana.
— Aqui estão as opções de música italiana para você.
Quando Ornella Vanoni começou a cantar L’appuntamento, abri a primeira garrafa de San José de Apalta e inaugurei o primeiro maço de cigarros como se iniciasse ali, sem volta, a cerimônia intransponível de um ritual de purificação. E para minha grata surpresa, horas depois eu percebi que, de fato, foi o que acabara de transcorrer. Chorei tanto naquela noite que foi como trocar o óleo das engrenagens enferrujadas e lubrificar os eixos da alma. Chorei uma pá de sentimentos desencovados, dos mais nobres aos mais sórdidos, e dediquei a mim mesmo todos os palavrões catalogados e não catalogados na literatura dos impropérios; fiz ainda ponderações sobre as minhas qualidades incontestáveis e só então me tornei um novo homem, devidamente equilibrado na corda bamba que conecta as extremidades da razão e da emoção. Desde então tenho chorado pra cachorro, como diz o poeta, e não me causa embaraço verter lágrimas em público, seja qual for a razão e o gatilho, nem mesmo quando a profusão se equipara à de uma hidrelétrica cuja barragem foi rompida pegando a todos de surpresa.

E assim vou vivendo e chorando sem aviso prévio e com raríssima condescendência com o constrangimento alheio. Quem, por ventura, estiver me fazendo companhia no balcão do boteco, que aguente com paciência a minha patuscada íntima ou se ausente até ela passar. Se por acaso decidir ficar, não se sinta na obrigação de me oferecer o ombro do consolo, pois está tudo joia e a vida segue. Foi apenas mais um assalto momentâneo do meu id inconveniente ao qual eu não mais resisto, apenas me entrego. Irei simplesmente inclinar a cabeça entre as pernas e entornar o sal das minhas singularidades. Rapidinho esse capítulo de novela mexicana vai passar, eu garanto. Enquanto isso, o infeliz espectador, para se poupar do mal-estar, pode fingir que nada viu, que nada se sucedeu. Eu não ligo, juro! Afinal, chorar é um troço só meu e indelével. Chorarei sempre que me doer na telha. Derramarei lágrimas no meu chope e você que se vire para proteger o seu aí do outro lado da mesa. Aliás, dessa tragicomédia particular eu já vi inúmeras reprises. Geralmente acontece assim: de mãos atadas, desconsertada, sem saber ao certo como acudir o pobre protagonista daquele súbito dramalhão, a espectadora simula distração ao telefone, quase sempre deslizando falsamente o dedo sobre a tela como se o feed da rede social fosse a sua boia de salvação mais próxima. Então fico eu, de um lado da mesa, a derramar as minhas matizes. E fica ela, do outro lado, fingindo que o melhor a se fazer é me deixar à vontade. Existe, no entanto, um outro roteiro possível: se você — seja mulher ou homem — sentir-se impelida ou impelido pela empatia e quiser me dedicar um rápido afago, não se acanhe, pode acariciar a minha cabeça. Acredite: chorar deixa dócil qualquer animal.
A culpada pela minha aptidão para o choro inconveniente é a minha nova terapeuta, que insistiu em me incentivar a abrir a válvula do encanamento lacrimal sem me preocupar com a tarifa. “Chora, que chorar faz bem”, disse-me várias vezes. De certo esse é o suprametro do clichê, mas ela tinha razão. Desde que me tornei um chorão confesso e desavergonhado, tenho andado muito melhor comigo mesmo e com o mundo. Reconheço sem falsa modéstia que pouco restou daquele sujeito intrincado, pessimista e acovardado de outrora. Quer dizer… algumas camadas de pessimismo — essas necessárias para atenuar as rugas e a queda de cabelo — permanecem no relevo racional do meu espírito. Contudo, agora, seja lá qual for a sorte de dores e delícias que atinjam meu peito no itinerário da vida, tenho vivido de peito aberto como nunca antes, confessando tudo que preciso e provando aquilo que mereço. Há quem já tenha percebido, inclusive, certas minudências em mim que nem eu mesmo havia dado conta.
— É impressão minha ou teu jeito de caminhar parece mais suave? — averiguou uma ex-namorada num encontro casual na padaria.
— Talvez! — respondi orgulhoso — Tô me cuidando à beça. Tenho até praticado a arte do skincare. Primeiro eu aplico o gel de limpeza antioleosidade após o banho, seguido do hidratante facial com vitamina C e, por fim, antes de sair para o trabalho, o protetor solar com vitamina E.
— É… a tua pele parece mais sequinha mesmo — atestou ela.
Dito isto, fica claro que não se trata de um placebo psicológico. Esse reles cronista que vos fala está, de fato, recauchutado por dentro e por fora. Tudo porque tem se deixado chorar com mais gosto e mais gasto.
Como se não bastassem os incrementos no bojo, há também uma dezena de benefícios fisiológicos que as lágrimas nos trazem, como atesta a oftalmologia mundial. Numa única gotinha vagabunda de lamúria escapando à revelia dos cílios, regam a pele um sem-fim de enzimas, lipídios, metabólitos, eletrólitos e outras belezinhas mais.
Sabiam que a terceira lágrima — sim, temos três tipos de lágrimas —, essa a qual chamamos “lágrima emocional”, contém muito mais proteínas e por isso adere melhor à pele, o que a faz deslizar pelo rosto mais lentamente?
E não para por aí. Eu poderia ficar horas e horas elencando as infinitas maravilhas desse néctar agridoce, visto que tenho estudado com afinco seu passado, presente e provável futuro. Por exemplo, o oftalmologista espanhol Juan Murube Del Castillo, da Universidade de Alcalá, em Madri, sugere a hipótese de que o choro tenha surgido antes da linguagem falada, como uma expressão mímica para comunicar as dores (do mundo?).
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Portanto não é de hoje que chorar é necessidade da alma, é troca de pele, é tinta fresca no palimpsesto da tez, é um minotauro-reis edificando a sua Pasárgada, é o nirvana do careta, é a flor na sarjeta no asfalto na boca do Vesúvio, é transver-se no dilúvio da não-matéria; chorar é a lapidação etérea dos diamantes ocultos. Quem não chora não gama nem goza, apenas jaz vivo como lápide pronta; até barata tonta sabe a força que o pranto tem. Se um dia, por desdém, esse país inventar de censurar o choro em público, eu mesmo estouro um motim nacional, porque não há sequer um mal que chorar faça, sobretudo de emoção. Sendo assim, pelo sim pelo não, vou chorando sempre que o palo desata.
Hoje mesmo, na lata, me ocorreu outro desses episódios em que surpreendo estranhos com meu inesperado pranto de ocasião. No Botequim do Popó, a convite de um amigo, eu acabara de conhecer um gracioso assistente social e uma atraente arqueóloga que, embora simpaticíssimos e de instantânea amizade, não mereciam ter presenciado tão precocemente o meu furor emotivo. Culpa daquela canção da Marisa Monte que insiste em me transportar para a época mais paradoxal da minha vida: as desventuras da primeira adolescência e todas as truculências da pobreza extrema — um tempo em que apesar da violência e da fome que assolavam famílias dentro e fora dos casebres em ruínas, havia na gurizada dos becos e palafitas o escapismo das “coisas desimportantes”, que somente décadas depois, quando li o genial Manoel de Barros na faculdade de Letras, pude compreender a crucial importância. “Prezo insetos mais que aviões”, sublinha o poeta. E foi seguramente por essa razão que quando a canção começou a tocar no botequim do camarada, recordei-me fatalmente da minha pobre mãe vendendo balinhas na porta do cursinho pré-vestibular da Oswaldo Cruz em São Luís, me carregando sempre a tiracolo. Obviamente que eu chorei até o talo, como se ainda estivéssemos no anel-viário esperando nosso ônibus passar.

Luis Fernando Mifô é radialista, redator, cartunista e ilustrador em João Pessoa. No meio disso tudo ainda escreve poemas e está preparando seu primeiro livro. Gosta de ser ariano, embora não acredite em signos. É quase cinéfilo, mas não maratona nada. Toca um pouco de guitarra, mas não sabe solar. Também não sabe nadar e já escapou de morrer afogado duas vezes quando era ousado demais no tempo da inocência. Ah, é fundador e editor da Larica Magazine.