
Ele conhecera o amor. Mas, às vezes, chorava de medo. Era tão bom tudo aquilo. Achara um delírio, uma ilusão, um sonho lindo. Seu amor era um livro escrito na solidão das memórias, dos mais doces encontros, da saudade feroz das paixões proibidas, das lágrimas tristes derramadas dos olhos. Algo singular era o amor para ele. Tratava-o sempre com muito zelo e respeito, e desse modo achava-o divino. O sonho de sua vida foi encontrá-lo. Sentia-o perto, mas ainda não tinha acendido aquela chama em seu espírito, o fogo que acende e aquece a vida.
Ouvia muitas histórias de quem não soube amar, dos que se amaram e amando enrugaram-se os corpos, as feições; o tempo já havia roubado muitas estações, mas o amor permanecera. O amor de dentro para fora jamais fora vencido. Muitos lembravam desse amor, desse que nos faz sonhar, do amor verdadeiro entre duas pessoas, em cuja força acreditamos e esperamos vivê-la. Falaram para ele de amores trágicos, dos amantes que não puderam se amar, dos amores gregos, dos amores de circo, as peças trágicas e cômicas. Ouvia as histórias das maiores loucuras de amor e tudo isso o encantava ainda mais.
Acreditava que só se ama uma vez na vida. Isso também justificava o seu medo. O amor que sentia tão forte e eterno o fazia suspirar e cantar alto para matar a saudade. As músicas e as declarações eram somente dela. Não tinha certeza do amor que ela sentia e isso o fazia amá-la ainda mais. Ela nunca dissera “eu te amo”, mas quando juntos, traduzia-se nas mãos frias do reencontro, na voz falha. Traduzia-se no medo de errar e parecer boba, no sussurro, no calor dos corpos, na doação ao se ver dentro dos olhos dela. Traduzia-se quando ela recitava versos de amor, quando declamava “Saudade” de Miguel Falabella, das músicas mais lindas cantadas ao pé do ouvido. Ele pairava no céu. Tudo eternizava-se em seu coração.
Traduzia-se no que ficava depois do prazer: no suor, no abraço, no cheiro e no colo, no repousar por sobre os braços estendidos, encostando a cabeça entre o ombro e o peito com jeitinho, na respiração cansada dividindo o mesmo ar. Traduzia-se ainda no cochilo e no despertar pelo beijo, um convite para mais uma dose de cólera do mais puro amor. Doía porque, no fundo, sabia que aqui na terra tudo é por enquanto, mas o seu amor não. O que aconteceria? Se era amor, era também essencial que fosse eterno, deveria transpor a vida como o amor de Deus.
Questionava se era assim mesmo, mas ninguém voltou para dizer. Atormentava-se. A melancolia confundia seus pensamentos e continuara sem respostas, sem certeza alguma sobre o sentimento dela. Ali, na mais exclusa solidão, já sofria a dor de perder o amor da sua vida. Ele seguia a vida amando ela, sentindo as dores, o ciúme e o tormento que a ausência provocava. Ele era um pouco infeliz, mas sempre sorria ao lembrar-se do tempo em que eram um só. O seu conforto sempre foi a certeza do seu amor. Tinha medo de passar pela vida sem conhecê-lo. Longe dela viveu com essa incerteza e o tempo ia vencendo os dois. A amava, e isso trazia alegria à sua vida. Falaram-se muito, despediram-se e juraram apenas um esperar pelo outro.
você também pode curtir
Os anos passaram e nem foram muitos para que muitas certezas fossem contestadas. O tempo amorteceu o amor transmutado em amizade distante. Depois houve um caso em que tornou-se um ardente e romântico amante, um pouco louco, impaciente, com dias de mal-te-quero e noites de bem-te-quero; de vinhos, madrugadas e tardes quentes com hora para acabar. Apresentaram-se logo cedo o amargo e as dificuldades de suportar as esperas e ausências, as promessas não cumpridas, as brigas ao telefone, as lágrimas repetindo “não te quero mais, não me procure” sem força de atitude. Assim como em outras histórias de amores impossíveis, essa sucumbiu. Ferido, ainda sorria dizendo a si mesmo em baixa voz: “Eu sou capaz de amar”. E mais uma vez, refeito, seguiu um pouco mais humano do que anjo.
Foi vivendo e nesse caminho pôde encontrar outras formas de amar em contextos e conexões diferentes. Nada mais de dizer que só se ama uma vez na vida. O que é que a juventude faz com a gente? Havia mais amores por aí, nos aplicativos de paquera, num perfil do Instagram e nas várias maneiras de se mostrar interesse por alguém (um like nas novas e antigas publicações, um follow, a visualização dos stories, o emogi com olhos de coração, o foguinho, os corações que deslizam na tela do celular).
Hoje falei com ele, o dono dessa história. Diferente de outrora, abriu-se mais para a vida. Muito sorridente me disse que agora namora um rapaz. Estão dando certo e me confidencia: “A gente se respeita, se deseja, se quer. Estamos construindo coisas boas juntos. Eu sou muito piegas. Isso nunca saiu de mim e olhe que tentei. Ele ri das minhas trapalhadas, envia foto dos gatos, do mar, das reportagens do dia e é cinéfilo assumido. Em outubro recebe seu apartamento e estou muito feliz pela conquista dele. Tenho vivido um amor tranquilo e tá bom demais”. Percebi que agora ele sabe que o amor está para a gente em qualquer momento da vida. Que foi preciso experimentá-lo em várias circunstâncias e moldes até aprender e se conhecer no amor e suas possibilidades. Parece mais capaz de posicionar-se e existir com seus afetos e relacionamentos. Apesar disso, por um momento, mostrou-se um pouco noturno. Falou-me de arrependimentos. Sorriu meio sem graça colocando as mãos nos joelhos, curvou-se olhando para cima, suspirou relaxando o corpo e disse “c’est la vie” como se tentasse aceitar o passado. Pareceu-me em paz na maior parte do tempo. Abraçou-me e lembrou da hora do almoço. Nos despedimos com afetuoso abraço e comprometidos de que nem mais uma pandemia nos poria separados.

José Wilamy Cosme Rabêlo nasceu em Serra Talhada (PE), cresceu em Manaíra (PB) e atualmente reside em Caicó (RN). É formado em Biomedicina e trabalha como técnico de laboratório. Se reconhece como um sertanejo “nato de modos e espírito” e diz que é “impulsivo e destemido como todo ariano”.