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O escritor Felipe Costa Cruz estreia na Larica Magazine com o conto “Corredor Onze”

O que diabos é que motiva esse guri a urinar nas covas? Por que ele faz isso? Vem quase todos os dias e manda ver. Mija numas quatro, cinco lápides… acho que seu recorde foi sete. Fico olhando de longe. A primeira vez que vi, reclamei: ô, moleque! Para com isso, rapaz! Ele saiu correndo. Não fui atrás, não. Tenho um problema na perna que me impede de andar direito. Mas o menino… moço! Que peste! Todo dia, no mesmo horário, ele vem com essa; já sei onde estuda – veste sempre uma farda. Provavelmente o cemitério é caminho da sua casa… ou será que faz um desvio proposital, o peralta? Não sei, realmente. Mas percebi que ele rega sempre as mesmas sepulturas, se é que eu posso dizer isso; notei lá pela quinta vez que a coisa não era aleatória, existiam prediletos: os últimos defuntos do corredor onze.

Eu fico bem longe dessas covas no horário das mijadas, que sempre ocorrem por volta das uma, sol a pino. Estou na guarita, almoçando ou esperando o almoço ou descansando do almoço, na sombra; eu mesmo é que não vou me meter nisso aí, que é problema do vigia, não do jardineiro. O que me importa esses mortos? Nada. Eles se incomodam? Duvido. Eu mesmo não ia ligar se mijassem ou cagassem ou cuspissem na minha lápide, depois dos bichos já terem feito um banquete do meu rosto e tudo mais. Até parece que isso ia me aporrinhar. E se fosse algum parente meu, ali, sofrendo esse escárnio? Dependendo do parente, eu ia mijar junto! O que quero dizer é: não tenho raiva do moleque – a coisa me deixa mesmo é curioso. Olha lá, de novo hoje! Que determinação!

Bolei um jeito de pegar ele, uma vez. Esperei sentado, perto do buraco no muro, uma brecha imensa que o moleque usa pra entrar no cemitério. Levei minha cadeira e fiquei ali, sentado na sombra de uma árvore. Nesse dia ele não foi. Então me aproximei das tumbas e fui olhar com atenção. Das sete últimas covas do corredor onze, quatro pertenciam à mesma família, três não – e eu tinha certeza que ele fazia um esforço extra para que seu mijo chegasse nessas três. Nem sempre conseguia, mas tentava. Olhei as datas. Tinham morrido quase todos velhos. O mais novo bateu as botas com 48, e o que tinha morrido mais perto disso foi oito anos antes. Oito anos… quase a idade do guri! Que raiva era aquela que veio do berço?

Comentei com minha mulher quando cheguei em casa, essa mesma noite. Ela só disse que era coisa de criança, que criança faz essas coisas, taca ovo em ônibus e picha muro, é só pra atentar, não tem um porquê, não. Mas eu duvido. Certeza que ali tem história.


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No outro dia, coloquei minha cadeira no mesmo lugar, um pouco escondido debaixo de um pé de caju. Era o cão ficar ali, não suporto cheiro de caju, me dá coceira, e tinha um monte de insetos. Mas aguentei. Lá vem o peste. Entra pela abertura no muro muito naturalmente, como se estivesse entrando em casa. Segue direto pro seu banheirinho, nem olha pro lado, vai no alvo. Fico lá, observando, enquanto ele faz seu trabalho. É um negócio até engraçado, toda aquela concentração e esforço pra guardar uns pingos pra todos, como se estivesse quase que fazendo um favor.

O guri não me olha, está de costas. Quando termina, fica ainda alguns segundos parado com a cabeça baixa, pensando sabe lá o quê. Caminha de volta para a entrada no muro. Eu chamo: ô, moleque! Ele me olha espantado. Gela. Ô, menino, vem aqui! Deixa eu falar um negócio contigo! O malandro sai correndo na mesma hora. Acho que até se machucou quando passou pela brecha na parede. No dia seguinte, não veio. Nem no outro dia. Passou assim uma semana sem aparecer. Me senti meio triste de ter espantado o garoto assim, de ter tirado dele esse objetivo diário, essa missão.

Até que na segunda-feira, fatalmente, ele estava lá. Entrou com a mesma desenvoltura e senso de dever, com um ar quase desafiador. Como mijou aquele dia! Deu um verdadeiro banho nas sete lápides. Se sua meta era a igualdade, foi alcançada naquele final de manhã. Do primeiro ao sétimo, todos tiveram seu banho recebido. Eu ria, olhando de longe, a seriedade daquela criança. Nessa semana, apareceu de segunda a sexta. Mas qual o motivo daquilo? Essa pergunta martelava na minha cabeça. Tive então outra ideia.

Fui de novo com minha cadeira pra debaixo do cajueiro, mas não fiquei sentado ali, me escorei no muro, bem perto da abertura, de modo que desse pra ver o moleque vindo. Fiquei apoiado de costas na parece, meio protegido por uma pilha de tijolos que ficava do lado de fora da abertura. Esperei, naquele sol miserável, suando já. Lá vem o guri. Fui o mais rápido que pude na direção das lápides. Esperei um pouco, calculando o tempo. Quando achei que era a hora certa, abri a braguilha da calça e comecei a urinar nos mesmos alvos que ele contemplava. Não conseguia andar de lado por causa da minha perna, mas atingi umas três lápides, parado ali, mexendo a cintura em semicírculos, um ventilador de mijo.

Terminei. Pude ver de rabo de olho que o guri estava parado perto da parede. Fui assoviando na direção do cajueiro, onde estava minha cadeira, sem olhar para trás. Sentei e fiquei observando o moleque dali da sombra. Estava lá, no mesmo lugar, perto do buraco. Me encarava. Começou a andar em minha direção. Antes de se aproximar, baixou para pegar um caju caído no chão; ficou com ele nas mãos por um tempo, depois jogou fora, bem longe. Foi chegando perto. O moleque me lembrou meu filho quando tinha essa idade. Estancou a uns dois metros de mim. Fiquei mastigando um palito de fósforo, com os cotovelos apoiados nas pernas, esperando. “Ei, moço”, ele diz, com um ar curioso, apertando os olhos por causa do sol e apontando para as covas do corredor onze, “aqueles ali também fazem sua mãe chorar?”


Felipe Costa Cruz é músico, compositor e escritor de São Luís (MA). Em 2022 lançou “Vila Paraíso”, seu primeiro romance. Faz parte da nova geração da música maranhense, se apresenta na noite de São Luís, não sorri nas fotos, mas é gente boa.

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