
Um grupo de jovens, acompanhado de um tutor experiente, chega a uma propriedade rural bucólica e sombria para curtir um fim de semana regado a sexo e drogas, quando de repente começa uma chacina inescapável. Essa não é exatamente a premissa do enredo de “X – A Marca da Morte” (2022), mas é a premissa que marcou o gênero de horror slasher no começo dos anos 1980, sobretudo na franquia “Sexta-Feira 13”, e de lá pra cá já foi utilizada quase à exaustão, com uma ou outra variação de cenário e trama. Contudo, em “X – A Marca da Morte”, o diretor e roteirista Ti West prova que essa quase exaustão foi um cuidado meu necessário. Ao ver “X”, tive a impressão que essa premissa clássica oitentista está no roteiro de West como tributo. Assim, o diretor embarca em uma das ondas cinematográficas do momento, o metacinema, ou seja, o filme como tributo permeado de nostalgia.
O estadunidense Ti West tem 42 anos e já acumula pelo menos 12 filmes no currículo – a grande maioria do gênero horror – além de ter dirigido episódios de séries. Mas é nesta nova franquia, que já nasce com cara de cult, que ele poderá estabelecer seu nome como uma espécie de Tarantino do slasher. E tal qual Tarantino em “Era Uma Vez em Hollywood”, cuja trama se passa nos anos 1960, West também nos transporta para uma década do passado em que o sonho americano de se tornar celebridade e símbolo sexual é atravessado pelas fatalidades do acaso ou da própria busca.
Em “X”, o diretor nos leva até a psicodélica década de 1970 para contar a história de seis pessoas que acabam sendo vítimas de uma série de assassinatos em um rancho no interior de Houston, no Texas. Neste caso, porém, não se trata de jovens na estrada em busca de aventura e de um bom rio de águas mornas para tomar banho pelados e fazer pegadinhas de falso afogamento. Wayne (Martin Henderson), RJ (Owen Campbell), Lorraine (Jenna Ortega), Jackson (Kid Cudi), Bobby-Lynne (Brittany Snow) e Maxine (Mia Goth) pretendem produzir filmes pornô e quem sabe transformar esse então subgênero, que na época era tratado apenas como coisa de pervertido, em uma indústria de cinema lucrativa e muito mais consumida nos lares americanos. É com esse objetivo que o produtor Wayne Gilroy, o diretor e cinegrafista RJ, a sonoplasta Lorraine, o ator Jackson Hole e as atrizes Bobby-Lynne e Maxine Minx partem para uma locação numa pequena propriedade rural no interior de Houston para gravar o filme “As Filhas do Fazendeiro”. Mas, tão logo o grupo inicia as filmagens, uma série de eventos tenebrosos envolvendo o sinistro casal de idosos Howard e Pearl, proprietários do rancho, começa a acontecer.

As aparições quase fantasmagóricas de Pearl, sempre observando Maxine à distância, dão o tom do suspense. Mesmo antes de começarem os assassinatos, as suspeitas facilmente já recaem sobre a velhinha e aos poucos já podemos, inclusive, começar a compreender as motivações mentais dela na cena em que ela convida Maxine para tomar uma limonada e mostra retratos antigos de quando era uma jovem e bela bailarina que ainda despertava libido no marido. Com o rosto esquelético refletido no vidro da moldura de uma fotografia na parede, Pearl diz a Maxine: “Também já fui jovem. Foi tirada bem antes da primeira guerra. Acredite se quiser, meu Howard serviu em ambas. Ele sobreviveu às trincheiras e à Praia de Omaha. Não havia nada que não fizesse por mim naquela época. Este é o poder da beleza”.
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“X” é um tributo às franquias de terror que marcaram nossa infância nos anos 1970/80, como “O Massacre da Serra Elétrica”, “Halloween”, “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, entre outras. Mas o que torna esse filme revigorante é a possibilidade de levantar temas da sociedade sem deixar de ser, antes de tudo, um filme de horror. Ti West o faz sem forçar a barra e, mais do que isso, com provocação. Por mais asqueroza que seja a cena em que Pearl e Howard finalmente recuperam o desejo sexual que havia se perdido e voltam a transar depois de tantos anos, não é bizarro sentir uma certa empatia pelo casal nesse momento.
A assustadora Pearl e a sexy Maxine, ambas interpretadas por Mia Goth, travam na nossa mente uma série de debates, entre os quais a nossa relação com a beleza, com a aceitação da passagem do tempo e com os limites da busca pelo sucesso. Maxine, consciente do seu talento como atriz e da sua sensualidade, vê no cinema pornô em ascensão uma ponte para o estrelato em Hollywood. Numa das primeiras cenas do longa, em que está no camarim de um cabaré burlesco cheirando cocaína, Maxine se encara no espelho e diz para si mesma, com altivez: “Você é um símbolo sexual”.

“X” é mais um exemplo em que a nova geração de cineastas do terror revigoram o gênero como fez, por exemplo, James Wan em “Jogos Mortais” (2004), como fez Damien Leone em “Aterrorizante” (2016), como fez Ari Aster em “Midsommar” (2019) entre outros. No entanto, diferente desses, X revisita os ambientes do slasher clássico – aquele que nos anos 80 evoluiu de filmes B para filmes populares de sucesso – com uma aura de saudosismo que não fica acima do tom. É impossível não lembrar de Sexta-Feira 13 quando a gente se depara com o lago do rancho, com a cabana locada para gravar o filme pornô, com o celeiro onde Wayne é morto… Aliás, Pearl é praticamente uma homenagem às duas mães mais assustadoras do cinema de horror: a mãe de Norman Bates em Psicose (1960) e a mãe de Jason em Sexta-Feira 13 (1980). E o melhor parece que ainda está por vir, já que temos mais dois filmes da franquia chegando: um se chama Pearl, que estreia nos cinemas brasileiros em fevereiro deste ano e conta a história da própria Pearl, como um prelúdio de X; e depois, ao que tudo indica, haverá um terceiro filme chamado Maxxxine.

Luis Fernando Mifô é radialista, redator, cartunista e ilustrador em João Pessoa. No meio disso tudo ainda escreve poemas e está preparando seu primeiro livro. Gosta de ser ariano, embora não acredite em signos. É quase cinéfilo, mas não maratona nada. Toca um pouco de guitarra, mas não sabe solar. Também não sabe nadar e já escapou de morrer afogado duas vezes quando era ousado demais no tempo da inocência. Ah, é fundador e editor da Larica Magazine.