
Durante o ensino médio eu criei um hábito peculiar. Sempre que possível, no caminho de ida para as minhas obrigações rotineiras (meu purgatório cotidiano), eu me esforçava para ouvir um álbum ou alguma playlist com músicas desconhecidas, aproveitando as indicações do algoritmo. Me orgulhava em completar aquele trajeto de pouco mais de uma hora descobrindo algo novo e me sentindo o pioneiro do bom gosto entre as pessoas da minha idade, como um típico adolescente.
Depois dessa fase conturbada, veio também a pandemia e o distanciamento social que empurrou para dentro das casas a maioria das pessoas, exceto trabalhadores essenciais e bolsonaristas – figuras antagônicas. Essa mudança brusca no comportamento desencadeou novas formas da gente lidar com as nossas frustrações. Ter o contato entre pessoas negado pelas circunstâncias implica em reinventar e redirecionar as energias do convívio social. Certos hábitos, já sólidos na rotina, perderam espaço para longos períodos diários de consumo de conteúdos em mídias (geralmente de curta duração esses conteúdos) ofertando logo ali, acima ou abaixo, uma novidade milimetricamente planejada esperando o seu clique.
Então, depois de me acostumar e me acomodar naquela vida sedentária e imediatista, eu, honestamente, não conseguia sustentar o velho hábito de ouvir álbuns inteiros, nem os podcasts que duram mais de uma hora e me emocionavam cedinho de manhã (Abraço, Luíde!). Porém, um dia fui pego de surpresa quando decidi ouvir um álbum com uma capa estranha que me apareceu como uma das sugestões. “Um avião dentro de um saco plástico? O que diabos isso significa?”. Na vontade de entender imagem e conteúdo, fui ouvir o disco na íntegra e, pasmem, eu odiei.

“Ah, mas todo mundo tá falando bem desse álbum. O que as pessoas gostam tanto nesse monte de barulho aleatório?”. Eu simplesmente não entendia. Achei melhor deixar de lado e ouvir qualquer outra coisa, um pop chiclete ou os mesmos artistas pelos quais eu sou obcecado há anos. Por muito tempo esse álbum ficou ‘engavetado’. Mas um dia, possivelmente como tudo na vida, as coisas começam a fazer sentido.
De lá pra cá passei por mudanças, algumas literais, outras não, e no meio disso, curiosamente, ouvindo novamente o mesmo álbum, eu percebi porque em algumas partes os instrumentos pareciam desconexos ou altos demais; ou quando uma música terminava de uma forma incômoda como em “Haldern” e a próxima faixa, “Mark’s Theme”, era tão calma, parecendo até não ser parte do mesmo disco.
Ants From Up There, segundo álbum da banda inglesa Black Country, New Road, lançado em fevereiro de 2022, é um retrato intimista do agora ex-vocalista Isaac Wood. Apesar de ser um trabalho coletivo, a carga emocional empenhada por Wood acompanha perfeitamente a melancolia e a explosão eufórica dos instrumentais, de tal forma que parece que seus companheiros de banda faziam ali uma catarse coletiva acolhendo-o em sua última performance antes de deixar o grupo, em definitivo, para iniciar tratamento para a saúde mental.
você também pode curtir
O álbum não fazia sentido pra mim, não porque eu não o compreendia tecnicamente, mas porque não tinha me permitido simpatizar com as dores de Isaac Wood. É naturalmente confuso adentrar à subjetividade de alguém, assim como é fácil chorar quando o escuto se arrepender e sentir falta das coisas e pessoas que passaram por sua vida, expressas de uma forma dolorosa em músicas longas.

Ants From Up There me abriu os olhos após anos em dessensibilização. Ele me fez chorar, me fez rir, me fez dançar e cantar dentro do meu quarto. Depois de tanto tempo, me tornei um sujeito mais consciente das horas do meu dia enquanto descia infinitamente a tela do meu celular procurando, de alguma forma, uma emoção real e fugindo do que me machucou. Ouvir esse disco me ensinou muito mais que remanejar minha atenção e ser paciente com as construções me permitiu, também, estender essas virtudes para outras pessoas.

Joalison Duarte é paraibano da cidade de Bonito de Santa Fé e faz faculdade de Psicologia em Cajazeiras, ambas no Sertão do estado. Inseparável dos fones de ouvido, tímido incorrigível, voz mansa, embriaguez low profile e cultiva um amor platônico pela Phoebe Bridgers.