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Norma Góes reflete sobre a frágil idealização do mito da mulher guerreira

“A Pérola é produto da dor”

As Negras escrevivências nos conduzem a um lugar de dor. Envoltas no engodo da beleza das batalhas, em constante guerra, parimos lágrimas e recomeços. Eu sempre considerei a escrita como um parto. O broto do desejo de escrevinhar germina quer seja pela beleza de um convite ou pela necessidade de expurgo… Da concepção às contrações do nascimento. Um dia desses reli algo sobre as pérolas, a correlação entre beleza e dor e a romantização do Mito da Guerreira, onde todo fardo é belo (mas e o falo?).

A pérola, ferida cicatrizada, quando um corpo estranho (um grão de areia) invade o interior da ostra ferindo o nácar, parte brilhante e leitosa interna, cria camadas e camadas sobre esse corpo para proteger a ostra, resultando em uma pérola, é um processo lento e doloroso…”

Cansei de ser fortaleza, continuo forte!

É incrível como gostamos de dar nomes bonitos a toda mazela, né? Creio que na perspectiva de suavizarmos o fardo, a melodia da palavra amacie a dor. Sempre me refaço Fênix – olha a palavra bonita outra vez! Abro caminhos, entendi que SER Fênix é aprender a refazer rotas.

Aprendi a chorar, desaguo.
Aprendi a perdoar, enxaguo.
Aprendi a caminhar, avanço.

Tenho feito personagens de ‘mulheres fortes’, sobrecarregadas de dores, silêncios e tomada de decisões. Silêncios tão próximos, tão vívidos que chego a sentir o cheiro, o cheiro da solidão acompanhada. Na ‘condição’ de Mulheres estamos sempre a sós. E sendo Eu uma Mulher Negra, essa solidão e julgamentos são potencializados. Diariamente somos subjugadas, Invadidas, Observadas, vivemos rodeadas por silenciosos inquisidores.

Moça sem brinco de pérola – Foto: João Damasceno

Mulher negra invadida! Um corpo indócil?

Eu sou constantemente questionada quanto ao meu potencial lógico argumentativo. A minha perspicácia, o meu gosto musical, este estará sempre associado ao samba ou ao reggae, ritmos que adoro, mas não só. “O ‘clássico’, não, você não tem cara de quem goste dos clássicos”. E o que seria um “clássico”, afinal? Pergunto Eu.

Clássico, por ventura, seria a tentativa da invisibilidade, apagamento, desqualificação do meu Eu? Seria a tentativa da limitação do meu corpo a? Do questionamento da minha presença em? Do assombro diante do meu entendimento sobre? O corpo indócil é incômodo.


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Cida, minha persona no filme “O Pato”, de Antônio Galdino, é a minha Fênix, e tem me conduzido a caminhos de retomada do meu Eu. Eu este que por anos esteve doente. Tão preocupado em Ser rocha, não percebia que era grão de areia em deserto de ostras. Belíssima, porém sozinha, dolorida, questionada, silenciada, julgada e condenada.

O que me manteve e mantém é a Arte, que é A Cura mesclada à minha Espiritualidade, não religiosidade. Eu falo do conhecer-se, de manter-se Fé, um dos sentidos mais encantadores e belos da vida. Acreditar é o sentido. Sou flor desabrochada, menina do tempo, de tempos…

O Silencio é a minha morada predileta. É de lá que eu observo a vida, a transitoriedade desta, o tempo perdido, os egos, a solidão das vidas na solidão das redes, A SOLIDÃO. Renascer é bom, mas para renascer é preciso quase desfazer-se… A sociedade, Racista e Misógina, continuará tentando nos fazer acreditar que, sim, estamos à margem, que somos frágeis, que não somos; que precisamos estar em meio a uma guerra, estimulando desde os primórdios uma competição imbecilizada. Criemos bolhas de ajuda, estejamos atentas às outras, aos silêncios gritados e aos limites da sensibilidade de cada uma.

Estou parindo atos e palavras. Em contínuo Invólucro.
Estou em Refazenda, Me refazendo, ‘refazendo tudo’.
Se Há’mares… Há’mores. Então navego.

A D. Benta minha Mãe, Noêmia minha Irmãe,
Jéssika minha Filha, Cris Fragoso minha Amora
e todas as Mulheres por Elas representadas.

“Imersa em silêncios,
grito quando escrevo.”

NG


Norma Góes é atriz, trançadeira, professora, escritora, roteirista, cantante e segue sendo. Nasceu em Salvador, mas há 30 anos vive a cultura de João Pessoa. Graduanda em Letras pela UFPB, mas também envolvida pelo curso de Antropologia. Há 25 anos com o “Beleza Black Norma Góes”, é uma voz pulsante e atuante da representatividade e da identidade negra para além da estética. Amante das Letras, escreveu o conto “Retalhos de Mim, RASGADO” e os esquetes “Os Amores de Oyá” e “III Tiros, onde estão nossos Filhos”. Desde 1996 tem atuado como atriz em diversos trabalhos no teatro e no audiovisual paraibano.

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