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Júlia Maia confronta a sociedade machista e exibe suas ‘feridas escondidas’

Já tinha 12 anos quando descobri que a vulva era mais do que o risco vertical que eu conseguia visualizar em pé na frente do espelho. Não refletia, mas desconfiava que se eu tocasse ali, uma sirene vermelha e barulhenta seria acionada. Realmente era oculto. Mas sujo, vergonhoso e perigoso eu só tinha ouvido falar.

Nossa sexualidade se forma assim, cercada de culpa, mas voraz. Apesar das amarras, o corpo tem instinto, é sábio, intuitivo, visceral. Mas normalmente a gente sente que é traiçoeira. Perigosa. Ludibriosa. Não só a vulva, mas tudo que envolve a energia feminina, sexual e criativa, que é reprovável em todos os corpos.

Não é à toa que uma das primeiras histórias que aprendemos na infância ainda seja Chapeuzinho Vermelho. Chapeuzinho é dona de um corpo arriscado, caso esteja no lugar errado. Cabe a ela seguir o caminho pré-estabelecido, caso contrário haverá um Lobo pronto para se aproveitar de sua escolha desobediente. E o mais triste é saber que, se nossas mães nos contaram, é porque sabiam da importância de temer esse risco, que é real.

Nossa soltura e espontaneidade pode até ser tolerada (com muita cara feia) até certa idade. Mas depois de mocinha, os adultos se sentem obrigados a sinalizar que o mundo não está pronto para não destruir uma mulher com sexualidade viva.

E não é assim simplesmente porque é assim. Na verdade, o sistema lucra com tudo que pode. Com nossa insegurança, com nossa ansiedade, com nossa tristeza e até com a liberdade sexual. Ou não é uma armadilha? Ser livre para me machucar através das relações. Ser livre para ser a mulher de um homem. Ser livre para ser objetificada. É que uma mulher machucada e reprimida começa a ficar confusa. Até agora eu não encontrei cura melhor do que coletivizar com outras mulheres para questionar as ideias conservadoras que nos exploram e dominam. Como nós vamos calar as vozes que insistem na Bela, Recatada e do Lar?

As forças sociais conservadoras, o bolsonarismo, as igrejas, os recentes movimentos como RedPill. Homens inseguros que, incapazes de criar novos significados para a masculinidade, recorrem à ideologia dominante das gerações passadas. Eles querem a mulher-objeto. A mulher que o homem exibe (ou escolhe esconder). Sua posse, que reflete aquilo que ele é. Um acessório, um enfeite.

E para o sistema capitalista, essa ideia vai muito bem, obrigada. Na verdade, foi fundamental estabelecer que a mulher se case e pertença a um homem só. Entre outras vantagens, é o trabalho dela que vai viabilizar o trabalho dele. Como? Basta olhar para nossas famílias. Quem prepara o almoço que dá energia para o homem ir trabalhar? A roupa que ele veste, estaria limpa se não fosse uma mulher a lavar? A casa, seria habitável? Os filhos, estariam vivos? E os idosos e doentes, quem iria cuidar?


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O trabalho doméstico não remunerado que a mulher desempenha (muitas vezes conciliado ao trabalho fora) é fundamental para o capitalismo. Caso contrário, os empregadores precisariam garantir esses serviços básicos de reprodução da vida, para que os empregados pudessem comparecer ao trabalho. No fim das contas, a mulher ideal é a que gera economia.

Mas falando de realidade e de Brasil, estamos longe deste ideal de família tradicional, homem provedor e mulher do lar. Nos dados recentes, 48,7% dos lares são chefiados por mulheres. E quando se trata de vulnerabilidade econômica e social, a cada 10 famílias, 8 são chefiadas por mulheres. Os estudos são do Grupo Globo e Ministério da Cidadania. É nas costas das mulheres, principalmente as mulheres negras, que está a crise econômica.

Vamos olhar para uma situação muito comum, e por isso mesmo interessante de questionar: uma mulher vive sozinha, passando perrengue, com seus três filhos. Um de cada pai. Por que o julgamento moral sobre a sexualidade dessa mulher vem antes da pergunta crucial: onde foram parar os três homens? E o Estado, não poderia ajudar? A ideologia dominante, entretanto, é de apontar todos os dedos para a mulher, mesmo que ela tenha sido a única a não fugir da sua responsabilidade.

O RedPill não diz nada de novo. Nós, mulheres, crescemos aprendendo dia após dia a existir de uma forma que não atrapalhe a ordem pré-estabelecida. Sem ninguém avisar, sabemos qual parte do corpo é preciso raspar, quais emoções esconder, o jeito adequado de sentar e a dizer sim sem questionar. O que assusta é que os grupos misóginos (que tem ódio às mulheres) estejam crescendo e colaborando para formar ideias odiosas nas mentes mais jovens. Plantando sementes que só podem germinar mais opressão para todos.

Bolsonaro foi derrotado nas urnas, mas o bolsonarismo e as ideias que ele aglutina seguem presentes – e ainda ganhando espaço na nossa sociedade. O conservadorismo busca impedir que as mulheres se agrupem para além da família e da igreja. É que nosso faro é certeiro, tanto que em 2018, pleno período eleitoral, ocupamos as ruas no movimento “Ele não”. Junto, é evidente, dos homens de luta que marcharam e marcham ao nosso lado. Nós, capazes de vislumbrar liberdade e dignidade para todas, todos e todes, precisamos nos agrupar e lutar.

As mulheres antes de nós cruzaram limites para chegarmos até aqui. Descobriram na ferida aberta, fertilidade e beleza. E quem melhor do que nós aprendeu a cuidar? No meio do tiroteio, faltando creche, trabalho, comida. Sobrando violência doméstica, sexual e policial. Nossa força motriz é, em meio a tudo isso, ser capaz de criar. A sexualidade que querem nos podar é só uma faísca do nosso potencial criativo que pode revolucionar. Potencial ferido, escondido, decepado. Mas vivo. Aguardando o cuidado.

No lugar da vigilância da vida uma da outra, autonomia coletiva. Ao invés de apontar o dedo, apoiar para ter coragem de se libertar. No lugar da vigilância interna, autoconhecimento. Culpar e punir menos, dando lugar para existirmos tudo o que somos e principalmente o que podemos ser.


Júlia Maia é gaúcha de Porto Alegre, onde vive produzindo arte. Formada em Jornalismo, luta pela revolução socialista e milita no Coletivo Alicerce. Disse que está se transformando em “outra coisa” e sua palavra preferida é “subversiva”.

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