
No dia primeiro último, o lendário álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, inteirou 50 longos anos. Aqui não há a pretensão de análise ou revisão, tal como um canal no Youtube ou coluna de crítica musical. Minha inglória tarefa é trazer ao texto um pouco do que penso e sinto do disco em sua totalidade.
Vamos combinar que uma banda de século não é lugar comum para agremiações musicais. É certo, sim, que raríssimas e valorosas exceções confirmam a regra, dos Stones aos Demônios da Garoa. No entanto, falamos aqui de um álbum de uma banda que está inativa desde… desde… a resposta é tão complexa quanto os demais detalhes de sua história e de sua música. Melhor, é tão complexa quanto a diversidade de suas músicas, considerando-se parâmetros poético-musicais e contextuais de ordem socioantropológica, psicossocial etc. Com a pretensão de sintetizar, o que quero dizer até aqui é que o Pink Floyd é uma banda multifacetada com um som idem, ibidem.
Pensar a banda a partir das fases de liderança do Sid Barret, do Roger Waters (a de fenômeno pop – voltaremos ao assunto) e do David Gilmour, a meu juízo, casa-se muito bem com as diferentes propostas musicais que o Pink Floyd galgou ao longo do tempo. Preservando-se sutilezas e nuances internas, podemos observar notoriamente uma primeira fase psicodélica-lisérgica, outra que reputo de caráter progressivo, com “os pés no chão e a cabeça na lua” e, por fim, uma fase com foco na arte per se. Atentemos à segunda fase, um quase “ponto de partida” que se expressou no lendário álbum aqui tratado.

Por oportuno, é importante frisar que as fases descritas não se propõem absolutas em si. A palavra “foco” não foi utilizada à toa, mas como indicativo de olhar, de relevo ante uma totalidade. Isso, portanto, sugere que as características observadas em uma fase também estão presentes nas outras. A questão é: foco. E tem mais… Existem gradações desse foco ao longo das fases. Isso posto, começo a tratar do tema no foro íntimo.
Meu início no Dark Side tem relação direta com o The Wall. Direta porque minha iniciação à vera com a banda se deu neste último álbum. Foi por aqui que um dileto amigo, experiente ouvinte das mais variadas vertentes e plagas musicais, apresentou-me o duplo álbum da banda britânica. Lembro perfeitamente que meus adolescentes ouvidos acostumados às distorções do heavy metal não digeriram muito bem aquela aparente calmaria sonora, com violões, pianos e afins. Nunca aparência e essência foram tão díspares quanto nessa minha percepção (risos). “Que som morgado!”, pensava o frustrado roqueiro na puberdade.
Para minha fortuna, essa foi uma fase de intensas descobertas musicais. Rodeado de amizades fruidoras de cancioneiros diversos, fui adquirindo com o tempo algo básico para superar dialeticamente a puberdade intragável do jovem: a música tem chão, mas é livre para voar. E foi nesse processo que voltei ao The Wall para ouvi-lo com outra perspectiva e o resultado foi uma catarse. De cara mergulhei em revistas, discos, CDs e incipientes mp3 galgados nos rincões da ainda restrita – para nós da classe trabalhadora – rede mundial de computadores. Mensagem cifrada à confraria geracional: eram os tempos do Kazaa.

Finalmente o texto vai começar! Pilhérias à parte, todo esse processo se fez necessário explicitar. O universo do social (como a cultura aí presente) é demasiado complexo para ser trancafiado em rígidos padrões, por mais que reconheçamos uma base estrutural que fundamenta a superestrutura. Outrossim, resta-me pincelar poucas palavras sobre o Dark Side.
De acordo com a periodização da banda, este álbum, para mim, enquadra-se na segunda fase (aquela dos pés no chão e a cabeça na lua). Um exemplo disso é a utilização de recortes de fitas (de cara dá pra pensar nas colagens das caixas registradoras em “Money”, os despertadores de “Time” ou das batidas do coração em “Breathe”). Cito também a marcante utilização de sintetizadores ao longo do todas as músicas. Isso, aliado aos solos de guitarra do David Gilmour, dá o cartão de visita do que foi o Pink Floyd daí em diante: rock progressivo baseado no rock’n’roll e no blues.
Em consequência disso, o som da banda se tornou mais palatável para as maiorias já habituadas à pegada pop daquela época (canções mais diretas, dosadas no tempo padronizado das gravadoras e das rádios). E isso não é demérito algum. Chegar ao “povão” com essa densidade sonora é para pouquíssimos, ainda mais acompanhada de petardos líricos.
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Descendo às letras, podemos dizer que o álbum marca o início do predomínio lírico do Roger Waters e seus temas políticos, filosóficos e morais. Se antes a psicodelia comia solta (que o diga o Atom Heart Mother), agora temos o conceito na centralidade. Aliás, é a era do disco conceitual e aqui conceito é carregado de intencionalidades.
O caso em tela, o “lado escuro da lua”, estaria em nossa essência diretamente influenciada pela vida real, pelo contexto que nos envolve e absorve, despertando sensações e reações diversas. É o dinheiro, a fama, a luxúria, a lógica do consumo etc. Por fim, dando cabo a essas malfadadas linhas, proponho uma tentativa de síntese: O disco traz um desencanto com os truques de encantamento da sociedade capitalista ocidental e dá pistas de como podemos buscar alternativas: Quanto mais você viver e mais alto voar / E sorrisos que você der e lágrimas que chorará / E tudo que você toca e vê / É tudo que sua vida será(Breathe).

Diego Nogueira é de Cajazeiras (PB), aonde o sol se põe mais bonito e o lado obscuro da lua está nos botecos de madrugada. É vocalista e baixista da banda Arlequim. Formado em História pela UFCG, desenvolveu a sua pesquisa de Mestrado com foco na história em música. Entre cigarros e cervejas, está sempre provocando amálgamas antropofágicas com as distorções do bom e velho rock ‘n’ roll. Um provinciano convicto que busca enxergar o mundo desde os sertões.