
A posição da poesia é a oposição, é com esse poema cortante feito sarau cerol cobra cascavel chocalho e veneno muito além do papel que tento, em meio a saudade e alegria, sobre um futuro de coração antigo, percorrer lembranças e outros delírios que fizeram passar no meu caminho o poeta Celso Borges, ou CB, como era costumas citado em meio às rodas boêmias regadas a papos e outras letras dentro da noite e dia etílica, fulminante, revolucionário que grita o verbo louco de rasgar a verba, delicado feito uma lua cheia desabando na calçada.
Conheci CB em uma das várias noites percorridas na ilha de São Luís, cidade que ele amava tanto a ponto de afundá-la em sua poesia quase por completa, sem deixar escapar nada, ou quase tudo noves fora nada, da Ponta D’areia à baba do boi estalando seus pálidos batuques e sotaques de estoque. Aliás, cultura popular era terreiro certo em suas lâminas verbais. Eu, um voraz frequentador dessa convulsão noturna que habitava o centro velho, fui apresentado a ele por outro poeta e jornalista, o querido Eduardo Júlio, em um barulho miserável que fazia no momento no antigo Castelo do Rock nos idos dos anos 2000. Em uma de suas festas sob o som distorcido naquela casa localizada no centro histórico de São Luís, Eduardo me apresentou Celso Borges. Até ali eu não fazia a mínima ideia de quem era aquele cara com sorriso marcante e acolhedor. Na verdade, nunca tinha ouvido falar dele, mas senti cá, no momento, que havia naquela persona, que trazia a fome de mundo na boca e olhos emitindo quasares, uma entidade que iria além dessa matéria óbvia que nos faz dizer – tá tudo bem.
Ele tava de passagem por São Luís, já que tinha escolhido a cidade de São Paulo por onde trabalhava como jornalista em veículos de comunicação como a TV Gazeta e Folha de S. Paulo. Diga-se de passagem, antes em São Luís, dentro dessa área da comunicação, ele já tinha sido o primeiro diretor jornalístico da recém-fundada TV Mirante e foi quem ajudou a criar também a Mirante FM. Ele volta a residir em São Luís e por definitivo a partir de 2009. E fui atrás de saber quem era aquele cara com olhar de criança banhando no Rio Anil, que fazia do mundo um antigamente sem nostalgia, sem muita pressa, sem nuvens carregadas de agrotóxicos, sem atiradores de elites, balas perdidas e escopetas filhas da puta, como diz o seu poema “Antigamente”, para o qual eu tive o prazer de trilhar sons para vários shows em palcos e ruas com ele, mas isso é uma outra história que detalho mais adiante.

Fui descobrindo que estava ali um dos grandes nomes da literatura brasileira, criador compulsivo, compositor, produtor, jornalista, da vanguarda em ideias e ações não apenas da cena cultural, mas humana também. Amigo, respeitador sem trair seu estado de coisas, com um posicionamento artístico, político e social afiado, contestador rico, incentivador, que dialogava com as várias gerações sem perder um segundo de paixão e em hipótese alguma abrir mão da alegria.
Fui atrás dos livros em primeiro lugar. Alguns ganhei de presente dele mesmo, e a coleção é tão vasta quanto bela porque seus projetos são sínteses do seu caráter inovador, que agrega as mais diversas formas de lidar com a arte e a vida sem separá-las, em suas várias vertentes. XXI (2000), Música (2006), Belle Epoque (2010), O Futuro Tem o Coração Antigo (2013), Pequenos Poemas Viúvos (2021), Lembranças, Lenços, Lances de Agora: Memórias e Sons da Cidade na Voz de Chico Maranhão (2022) e todos, como dito, traziam as janelas abertas para experimentações além das letras, como se já não bastasse a poesia derrubando paredes. Além dos trabalhos fonográficos, e aqui cito apenas alguns: A Palavra Acesa de José Chagas (2013), produzido em parceria com o amigo de longas datas Zeca Baleiro; Pão Geral – Tributo a Tribuzi (2017). De ambos tive a honra de participar com minhas produções musicais. Virado que só miolo de boi, ele era também produtor cultural, assessor de imprensa, editor e outras mais variadas atividades, movido pela energia criativa das possibilidades, das alegrias coletivas e agregadoras.
Quando ele ainda era morador de SP, aproveitei das suas idas e vindas a São Luís para convidá-lo a gravar um som para o segundo álbum da minha banda, a NegoKa’apor. A música era “É Inverno” e queria que ele botasse o poema “Chacal”. Ele topou e fez questão de participar de todo o processo de edição, sugerindo efeitos e cortes, formando assim a nossa primeira parceria. Infelizmente a música, assim como o segundo álbum dessa que era a minha primeira banda, nunca foi lançada, por motivos que eu não saberia explicar, apesar de possuir o arquivo musical até hoje. A serpente explica. E começou assim a parceira musical-poética com Celso Borges. Um dado curioso é que o estúdio de gravação desse som foi na antiga Bagasound, que ficava justamente alpegada da casa onde ele viria a morar em seu retorno definitivo a São Luís. Comentamos isso muitas vezes depois.
O primeiro convite dele para uma parceira veio a partir do projeto A Palavra Voando (creio que em 2010), onde ele arrancava letras do cancioneiro popular e me pediu pra jogá-las em outra sonoridade, em releituras que iam muito além da revisitação, porque as canções viraram, de fato, uma outra coisa. Nomes como Caetano Veloso, Raul Seixas, Chico Buarque, além de seus próprios poemas, foram lançados ao ar como o susto e a beleza de um boi vermelho que berra. E veio adiante mais: Sarau Cerol, A Posição da Poesia é a Oposição, The Dark Side Of The Moon e outras várias ideias que surgiram entre uma maré cheia e outra, sempre pronto a sorrir ou chorar Olho D’agua, onde cada palmeira era um índio, uma palavra prima. E assim foram mais de uma década de produções contínuas, dezenas de shows, parcerias alucinadamente coesas, shows em diversas cidades do Brasil e em São Luís do Maranhão. Com Celso Borges eu revivi a poesia em catarse, “fora da palavra quanto mais dentro aflora a palavra”, nos seus livros-discos, seus discos-livros, rádio-vídeos-papel-internet-rua, céu aberto em um berro solto no pé do ouvido do mundo.
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A poesia é maior que a morte
O Homem Poema, como era chamado por muitos, Celso Borges parte do plano físico aos 63 anos, dia 23 de abril de 2023, um domingo de sol, quente pra caralho, daqueles que ele gosta, quando é bom passear na Ponta D’areia, antes de virar uma loja de conveniência, misera, com uma camiseta Hering e uma foto de Janis Joplin no peito. Cheio de amigos e fãs, como de costume.
Eu tô é tu, CB, sair assim com a palavra, voando, sem botar mais uma dose de tudo num botequim à luz da rua, talvez à noite quase-palavra, cara a cara com os meninos nos semáforos sob olhar cego de um turista de pacote clicando a tanga do boizinho de butique. Mas eu te conheço carnaval. Tu deves tá dizendo por aí: “se tu quer, faz”. É muito do teu feitio isso. E vou fazer, ao menos vou tentar, porque se tem uma coisa que tu foi, a palavra viva. E tu, poeta em tempo integral do jeito que é, teimoso com esse mundo cão que só o cão, vai cantá-la seja onde for, né? Tô te esperando, porra!
Só pra fechar, nesses mais de 10 anos de parceria, foram várias trocas de mensagens em múltiplas plataformas, mas o e-mail era o modo oficial dele e até nisso ele gostava de imprimir seu estilo. Teve um enviado em 2018 em que um trecho, mais do que nunca, hoje faz todo sentido pra mim, e dizia: “Queria poder acompanhá-los, mas acredito no que vcs fizerem”.

Beto Ehong é cantor, compositor, apresentador, escritor, radialista, produtor cultural, ator e – ufa! – um multiartista. Nascido e criado em São Luís do Maranhão, donde viu o mundo pela janela de um mirante. Surge no cenário há duas décadas com composições premiadas em festivais de música diversos. Viaja o país tocando em palcos, junto a grandes artistas da música brasileira, entre os quais Nação Zubi, Otto, Flávia Bittencourt, Rita Benneditto, Fauzy Beydoun e outros. Atualmente finaliza “Um Livro Pra Tu Botar Fé”, projeto literário.