
Cinco dias antes ela já tinha avisado numa postagem no Facebook: “Não quero nem presente nem parabéns pelo dia das mães, porque eu não sou mãe só uma vez por ano”. Então pensei numa experiência inédita para nós dois. Hoje, “dia das mães”, fui até a casa dela, levei um vinho tinto e disse: “Mãe, senta aqui, eu vou entrevistar a senhora”. Rascunhei algumas perguntas e subimos para o andar de cima enquanto meu irmão ficou na cozinha preparando o almoço. Pensei que haveria rejeição da parte dela, como geralmente acontece quando a convido para termos um tempo juntos fazendo alguma coisa fora do cotidiano, tipo assistir um filme ou ouvir música bebendo (são ocasiões raríssimas). Mas, dessa vez, ela topou sem fazer objeção. Perguntou apenas se ia demorar, como sempre faz. Depois subimos para o andar de cima para termos mais silêncio. Eu com um bloquinho de notas aonde rabisquei as perguntas e ela bastante paciente, para minha surpresa.
Dona Raimunda (Mundinha), aos 71 anos, é uma mulher profundamente amargurada por tudo que a vida e as pessoas ao seu redor fizeram e ainda têm feito com ela, cada qual com sua parcela de culpa. Há muito tempo eu sei que ela é uma mulher triste. Mas foi durante trinta minutos de entrevista que eu pude constatar com mais clareza o grau das suas feridas abertas.

Filha de agricultores no Sertão da Paraíba, pobre desde sempre, estudou somente até a 4ª série e depois foi impelida pelas circunstâncias a trabalhar. Casou, virou costureira autodidata, teve três filhos homens – eu sou o mais novo – e encarou uma relação de abuso e violência doméstica praticada pelo meu falecido pai, alcoólatra, durante muitos anos, até que finalmente ela teve coragem (bem mais difícil de ter naquela época) para fugir levando nas costas a prole indefesa que também apanhava do genitor (eu com 5 anos de idade e meus irmãos com 7 e 9). Caímos na estrada com a trouxa de roupas e fomos parar no Maranhão. A partir daí ela dava início a uma nova fase de vida que, se não tinha mais a violência doméstica do marido, teria a violência da pobreza e seus infortúnios.
Ao entrevistar minha mãe, fiquei um tanto quanto surpreso ao perceber tamanha dificuldade que ela tem em enxergar qualquer resquício de felicidade na sua vida, sobretudo para uma mulher com preceitos cristãos. No entanto, reconheço que não seria justo com ela exigirmos uma perspectiva diferente. Quem sou eu para tal? Quem somos nós? O que nós sofremos perto do que ela passou (e ainda tem passado, guardadas as devidas proporções)? Embora ela tenha compreendido, durante a entrevista, que a vida é um percurso com dores e delícias, é perfeitamente compreensível quando ela afirma que os momentos de felicidade foram tão poucos que ela acaba esquecendo com facilidade. Por outro lado, talvez as duras batalhas tenham doutrinado sua mente e seu espírito de modo que ela acaba dando mais importância às dores do que às delícias. Espero que daqui pra frente isso mude um pouco.

A entrevista
Quem é Raimunda de Lima Pinheiro? – É um personagem que sofreu muito na vida. E meu sofrimento não vem depois do casamento, vem desde criança. Sofri muito com a separação dos meus pais. A vida foi muito dura para minha mãe ficar com dez filhos. Hoje até posso dizer que eu sou outra pessoa, já passou aquela fase de tanto sofrimento, que foi quando criança e quando me casei. Depois do casamento foi outro sofrimento. Me casei com a pessoa errada, no sentido de que não deu certo o casamento. Hoje é outra coisa. Melhorou, digamos, 80%. Mas, apesar de ter passado aquela fase de sofrimentos, eu sou uma pessoa triste, preocupada, sempre me preocupando mais com os outros do que comigo mesma. Então, essas preocupações que eu tenho com algumas pessoas da família é que me trazem essa tristeza, eu me sinto uma pessoa triste por dentro. Hoje eu não tenho alegria para brincar, para sair, para ir numa diversão.
Se a senhora tivesse tido a oportunidade de estudar para ter outra profissão, o que gostaria de ter sido? – Eu teria o sonho de ser professora, teria estudado para ser professora. Eu sei que seria capaz e acho lindo, eu gosto muito.
Hoje em dia, ainda tem algum sonho? – Não. Eu não tenho mais. Quer dizer… até tenho. O sonho da casa própria. Até virou uma frase feita, mas esse é meu sonho. Mesmo assim, eu já me desiludi. Sonhos materiais eu não tenho mais. Agora meu sonho é ter paz, sem nada para perturbar meu sono, minha mente.
A senhora acredita em destino? – Não. Destino, cada um faz o seu. Algumas pessoas têm oportunidade de traçar seu caminho e outras não têm. Mas não acredito que a pessoa já nasce predestinada para ser aquilo. A pessoa é que toma as decisões.

O que é essa possível existência que a gente chama de Deus? – Para mim, Deus é o espírito que rege o mundo, que rege todos nós. Pensa bem: se nós não tivermos fé em alguma coisa, como que a gente vai viver? A gente tem que se apegar a alguma coisa. Então, a nossa fé tem que ser em Deus. Se a gente não confiar em Deus e não acreditar nele, a gente vai ser o quê? A gente vai viver do quê? Para mim, Deus é tudo. Tanto que eu só acredito nele. Não existe, para mim, outro santo. Para várias pessoas existem vários santos. Mas, para mim, não. Só existe um único Deus verdadeiro.
Ainda tem esperança na humanidade ou é um caso perdido? – Sinceramente eu não tenho mais esperança. Não generalizando, mas a maioria da humanidade já está perdida e não tem mais conserto.
Nessa vida, a senhora sentiu mais dores físicas ou espirituais? – Espirituais, com certeza. Muito mais dor no coração do que no corpo.
Se a sua vida fosse um filme ou um livro, como se chamaria? – “Tempo perdido”, porque eu perdi todo tempo da minha vida tentando mais ajudar os outros, não financeiramente porque eu nunca pude, mas apaziguando um aqui e outro ali, sempre ajudando da maneira que eu pude. Meu filme seria esse, porque eu não consegui nada.

A senhora não acha que a vida é feita de momentos de felicidade e momentos de tristeza, ao invés de uma busca por algo? Não acha que o que complica a vida é pensar que a felicidade está ali no horizonte e a gente precisa alcançar ela? – Sim, tem momentos de felicidade. Não tem felicidade a vida toda, nem para os ricos. Mas, os momentos de felicidade, se é que eu tive, foram tão rápidos que eu esqueci tão rápido.
E se essa coisa estranha chamada vida fosse um filme, como a senhora gostaria que terminasse? – Com o fim da violência e o fim da pobreza extrema; digo a pobreza do povo que vive nas ruas passando fome, dormindo na chuva. O filme teria que terminar sem ter mais nada dessas coisas que acabei de falar.
Eu sei quais são as suas canções preferidas. Posso citar quatro delas: “Mississippi”, das Pussycat; “Yolanda” na voz do Ney Matogrosso; “Suspicious Minds”, do Elvis Presley; e “I Don’t Want to Talk About It”, do Rod Stewart. O que a senhora sente quando ouve essas músicas? No que ou em quem a senhora pensa?
As que são em inglês eu não posso afirmar nada porque eu não entendo a letra. A de Elvis Presley eu sei que em português quer dizer “Mentes Suspeitas”. Mas eu nem sei explicar por que eu gosto tanto dessa música. Talvez seja só pelo título dela. É tipo assim: quando você está pensando que uma pessoa está fazendo a coisa certa, ela aparece fazendo a coisa errada. Eu imagino assim. E até porque eu gosto do Elvis Presley desde que me casei. Eu não sabia que ia me dar mal no casamento. Aí eu fui para São Luís do Maranhão e ele estava no auge do sucesso. Digamos que foi o único momento de felicidade que eu tive, foi quando eu me casei e viajei, mas passou pouco tempo. Já “Yolanda” me dá uma tristeza porque eu comecei a ouvir no Maranhão, eu estava na pior fase da minha vida. Eu fico ouvindo ela e me lembrando daquela fase que eu passei, aí eu volto para essa fase que eu estou agora e penso: ficou lá, eu sobrevivi.

Com o que a senhora mais se preocupa hoje em dia? – Com a minha família. Não ela toda, mas com os mais próximos de mim.
Nós somos uma família que se abraça pouco, comparada a outras famílias. Por que a gente se abraça pouco, na sua opinião? – Não sei. Talvez falte amor, devido ao que já passamos. Todo mundo já sofreu muito, cada um com seu sofrimento, cada um com seus problemas, cada um se virando como pode. Aí falta aquele afeto. Acho que é isso. Falta de amor vem do sofrimento.
A senhora fez uma postagem no Facebook afirmando que não queria nem presente nem abraço no dia das mães porque todo dia é dia delas. Qual o recado que a senhora deixa para todas as mães? – A mensagem que eu deixo é que seria bom que todas pensassem como eu. A gente é mãe desde a hora que chega na maternidade, mas tem muitos filhos que, passa o ano quase todo, não vão na casa da mãe dar um abraço, um beijo, não desejam um feliz dia. Aí quando chega esse dia, está lá todo mundo publicando as coisas. Mas antes, meses e meses, não lembrou que tinha essa mãe. Por que lembrar só uma vez por ano?
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Qual a força motriz que impulsionou a senhora a conseguir escapar de um lar violento levando três crianças rumo ao desconhecido? – A força se chama “meus filhos”. Por diversas vezes ele chegou bêbado e maltratou seus dois irmãos. Eu não lembro se ele maltratou você, que era bem menor. Então eu pensei: vou tirar meus três filhos das mãos dele. Foi essa frase que veio na minha cabeça, e eu fiz.
Para fechar, que mensagem a senhora deixa para as mulheres que sofrem abuso e violência doméstica? – Eu só tenho isso a dizer: separe, separe e separe. E se puder ir para longe como eu fiz, melhor ainda. Eu saí daqui em 1986, tinha pouquíssimo trabalho para mulher. É como você disse no começo, a minha profissão foi por conta da necessidade. Eu nem tinha ainda profissão. Cheguei lá [Maranhão], consegui aprender e terminei de criar meus filhos. A única motivação para eu sair de Cajazeiras em 86 pedindo ajuda pelos caminhos, foi meus três filhos.

Luis Fernando Mifô é radialista, redator, cartunista e ilustrador em João Pessoa. No meio disso tudo ainda escreve poemas e está preparando seu primeiro livro. Gosta de ser ariano, embora não acredite em signos. É quase cinéfilo, mas não maratona nada. Toca um pouco de guitarra, mas não sabe solar. Também não sabe nadar e já escapou de morrer afogado duas vezes quando era ousado demais no tempo da inocência. Ah, é fundador e editor da Larica Magazine.