
Em meio a uma densa cortina de poeira tóxica surge a hacker Gina (Norma Góes) caída ao chão, exausta, mas saboreando o estado de catarse de quem superou os medos para cumprir a maior missão da sua vida. Em seguida o noticiário avisa que foi identificada a mulher suspeita de implantar uma bomba “no maior empreendimento espacial já criado pelo homem”. Essa é uma das sequências do curta-metragem paraibano “Extinção”, dos diretores Eriko Renan e Maycon Carvalho, que vai percorrer festivais de cinema independente pelo Brasil.
Nesse momento do filme me dei conta de que na vida real a humanidade está presenciando a segunda corrida espacial da sua história, mas com personagens e perspectivas um pouco mais surpreendentes, intrigantes e assustadoras do que na primeira. Agora o espaço não está sendo disputado apenas por governos, mas também por grandes corporações privadas que são empreendimentos de bilionários com caráter, no mínimo, duvidoso. Essas figuras são tão excêntricas que eu tenho a impressão que o interesse delas pelo sistema (solar) varia entre o entretenimento, a mera satisfação do ego e até mesmo a conquista de territórios em outros planetas.

Parece horizonte distante, mas a história da ficção científica no cinema tem nos mostrado que suas previsões sempre parecem estapafúrdias, mas com o tempo se tornam realidade, guardadas as devidas proporções. Alguém duvida que o planeta Terra poderá um dia se tornar inabitável, forçando o ser humano a se adaptar em outros planetas e povoá-los? Alguém duvida que se isso vier a acontecer, haverá seleção social e, portanto, segregação no transporte de pessoas e no direito ao novo lar?
É também disso que se trata o curta-metragem “Extinção”. O filme mostra um planeta Terra devastado e praticamente sem condições ambientais para sobreviver em um futuro distópico. Não se consegue respirar sem uso de máscara e pouco se enxerga em meio à poeira tóxica. Apesar dos recursos materiais limitados, a diretora de arte e cenografia Ana Dinniz faz um grande trabalho na montagem de ambientes obscuros que, mesmo em plano fechado, dão a ideia de uma ampla paisagem desértica e devastada. Ana Dinniz e Jaildson Lins também se destacam na produção do figurino, com vestimentas de sobrevivência e combate na estética cyberpunk que aludem a diversas produções cinematográficas de distopia apocalíptica, como Mad Max, Blade Runner, Duna, Elysium, entre outras.
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Na trama com roteiro de Maycon Carvalho, Gina é uma hacker que vive na Terra colapsada e lidera um grupo de rebeldes que planeja destruir a ARCA, uma estação espacial para onde são levados os ricos e alguns criminosos de guerra que recebem cortesia. Gina conta com a ajuda da guerreira “Sem Rosto” (Alhandra Campos) e do computador humano Tebas (Carminha Abrantes), que tem flashs de memória nos quais ela lembra do passado. “A ganância do homem destruiu a natureza. Miserável! Por tudo isso, não sobrevivi para te ver assim tão feliz”, diz Tebas ao neto (Pedro Augusto) em um desses flashs de memória.
Mas antes de executar o plano de destruir a Cattle Space Corporation (organização que governa o que resta da humanidade e executa os voos para a ARCA), os rebeldes precisam confirmar a existência de Saruê, um lugar na Terra aonde a natureza segue intocável; um oásis de onde a biodiversidade pode recomeçar; uma espécie de paraíso que até então estava apenas no imaginário dos que dele ouviam falar. A Saruê do filme é uma referência à mitologia sertaneja construída em torno de São Saruê, um paraíso terrestre criado pela oralidade popular e eternizado pela literatura de cordel.

Com cerca de 16 minutos de duração e produzido com recursos financeiros da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, “Extinção” faz dois importantes alertas. O primeiro está na própria trama da ficção. É o alerta ambiental. Nesses tempos em que muito se discute sobre aquecimento global e na prática pouco está sendo feito pelos governos, pelas empresas e por nós mesmos, “Extinção” também levanta o debate acerca dos biomas do Nordeste brasileiro. Afinal, o filme foi gravado em São José de Piranhas, no Sertão da Paraíba, cidade onde aconteceu a pré-estreia em praça pública.
Quando se fala em desmatamento no Brasil, não é só a região amazônica que sofre, mas o semiárido nordestino também, e pelos mesmos motivos básicos: exploração de recursos naturais por empresas e a urbanização desenfreada irregular. Recentemente o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) embargou 3.380 hectares de caatinga desmatados ilegalmente na região da bacia do rio São Francisco, na Bahia, uma área equivalente a 3,3 mil campos de futebol. Esse é apenas um exemplo recente do que ocorre há décadas.

O segundo alerta que “Extinção” faz é: invistam no cinema fora das capitais! Os diretores Eriko Renan e Maycon Carvalho, juntamente com sua equipe de colaboradores, provaram do que são capazes. Estudantes de Comunicação Social na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Renan é de Garanhuns (PE) e idealizador do Fórum Audiovisual do Agreste Pernambucano; Maycon é de Pacajus (CE), radicado em Sousa (PB), e fomentador cultural através do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). “Extinção” é o primeiro filme que eles dirigem juntos. Foi produzido pela Incartaz Filmes e coproduzido pela Covil Audiovisual, Pantim Produções e Maquieira Produções.
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Luis Fernando Mifô é radialista, redator, cartunista e ilustrador em João Pessoa. No meio disso tudo ainda escreve poemas e está preparando seu primeiro livro. Gosta de ser ariano, embora não acredite em signos. É quase cinéfilo, mas não maratona nada. Toca um pouco de guitarra, mas não sabe solar. Também não sabe nadar e já escapou de morrer afogado duas vezes quando era ousado demais no tempo da inocência. Ah, é fundador e editor da Larica Magazine.