
The Last of Us, série apontada por muitos como melhor adaptação de um jogo de vídeo game para a televisão, tem se destacado por dar tempo de tela a fatores mais humanos que o de costume dentro de uma obra de ficção pós-apocalíptica. Dentre muitas das pautas tidas como tabus ou impopulares para os homens geeks de plantão, a mais nova queridinha da HBO Max, em seu 6º episódio, de nome “Parentesco”, aborda, de forma espontânea, o primeiro contato da protagonista Ellie (Bella Ramsey) com um coletor menstrual, dispositivo de silicone que, mesmo causando questionamentos e estranheza nos dias atuais, foi inventado há mais de 80 anos, é reutilizável, possui benefícios cientificamente comprovados e dispensa o uso de absorventes e OB’s – engenhosidade fundamental para quem está lidando com o fim do mundo e a escassez de itens de higiene – também reduzindo significativamente a produção de resíduos do grupo A (lixo biológico).
A menstruação nunca foi uma pauta tratada confortavelmente pela televisão, nem pelos games e, principalmente, pelas religiões de origem cristã. Mesmo nos comerciais e campanhas de marketing dos próprios absorventes é comum vermos as mulheres cavalgando, pedalando, nadando, correndo maratonas, enfim, fazem de tudo, exceto lidando com o próprio fluxo de forma natural e sem constrangimentos.

Seja nos intervalos da TV aberta ou em uma propaganda do Youtube, assistimos marcas esbanjarem testes de absorção de forma ilustrativa, com líquidos azuis, verdes, lilás… tons que remetem a qualquer coisa, menos ao sangue. E quem quer ver sangue? Ou falar sobre “aqueles dias” enquanto curte um vídeo da sua influenciadora favorita? Esse é o ponto… Muitos “que nojo”, “eca” e outras aversões são frutos de um estigma que já extrapolou todo o tempo que tinha para ser superado.
Pessoas com útero menstruam. Evitar este assunto em situações comuns ou mesmo em realidades apocalípticas é negar, em parte, a humanidade e invisibilizar um problema que carece da nossa constante atenção: a pobreza menstrual.
você também pode curtir
Para quem se interessou pelo tema, cabe uma menção honrosa ao documentário vencedor do Oscar 2019 na categoria de melhor documentário em curta-metragem, “Absorvendo o Tabu – Period. End Of Sentence” (Netflix), que discute o tema de forma necessária e sincera.
Ainda que estejamos longe da discussão ideal, The Last of US une-se aos que ousam furar a bolha na abordagem do tema culturalmente indigesto, não apenas por colocar em cena o “inovador” copinho de silicone e sua forma alternativa de lidar com o fluxo, mas por exibir mulheres enfrentando algo comum à sua realidade sem receio.
Três passos para utilizar o coletor menstrual

No terceiro episódio, com o título de “Por muito, muito tempo”, enquanto Joel (Pedro Pascal) visita um ponto de apoio em busca de suplementos, Ellie celebra, sem timidez ou demérito, o fato de ter achado uma caixa de “tampões” (absorventes) e, diferente de como é roteirizada a grande maioria das produções, a personagem feminina não esconde isso da figura masculina que a acompanha. Pelo contrário, ela ergue a caixa azul empoeirada e mostra para Joe, em tom de conquista, que aquilo era necessário à sua realidade e tudo bem. Tudo bem falar disso para um cara de meia idade ou para qualquer outra pessoa. A menstruação é uma realidade até mesmo na ficção. É passada a hora de lidarmos bem com isso, dentro e fora das telas.

Luana Andrade Cabral é cearense da cidade de Barro, no Cariri do estado. Estudante de Direito na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), campus de Sousa, no Sertão da Paraíba. Colaboradora e membro do Coletivo Cultural Miolo de Pote, do qual faz parte desde a fundação. Escritora, ilustradora e cordelista. Entusiasta do desenho e da poesia. Uma artista LGBTQIAPN+ independente. Atualmente com dois cordéis publicados que abordam a realidade homoafetiva em meio ao cenário político e cultural nordestino.