O Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) promove nesta sexta-feira (4) um encontro inédito de gerações da música paraibana. A revelação Laura Freire e o mestre Naldinho Braga fazem um dueto no palco do Núcleo de Extensão Cultural (NEC), da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na cidade de Cajazeiras. O show deveria ter sido realizado em abril, através de uma parceria entre a Fundação Espaço Cultural (Funesc) e o CCBNB. Mas a Funesc deu para trás alegando falta de recursos. Para não deixar o projeto se perder, o CCBNB assumiu a responsabilidade financeira e a produção completa. Finalmente a nova data foi marcada. A entrada é gratuita e o show começa às 20 horas.
A jovem cantora e compositora Laura Freire tem tudo para ser um dos expoentes de uma nova vanguarda na Paraíba. Há apenas 5 anos vem se dedicando à música profissionalmente, mas desde muito cedo aprendeu a importância das grandes referências sem deixar de ter a sua própria assinatura vocal e performática. No momento ela está montando um show previsto para estrear ainda em maio.

Naldinho Braga, por sua vez, é uma daquelas figuras lendárias que ajudou a alicerçar o cenário da música alternativa em Cajazeiras desde os anos 1980 e depois além-sertão. É pesquisador das culturas regionais, compositor e instrumentista em diversas bandas que ajudou a fundar, como Conspiração Apocalipse, Tocaia da Paraíba, Carro de Lata, Avuô, Meu Quintal, além de projetos solos. Atualmente está terminando de gravar um disco infantil financiado pelo Fundo Municipal de Incentivo à Cultura (Fuminc).
Nessa apresentação acústica, Laura e Naldinho interpretam canções de suas autorias. Eles estarão acompanhados de Pepi Braga e Artur Freire nos violões, Nildo Xavier na percussão. A abertura ficará por conta da apresentação instrumental dos músicos Ítalo Lídio e Raphaell Maciel.
A Larica bateu um papo com Laura e Naldinho sobre o dueto e as transformações do cenário musical no Sertão. Leia a seguir.

Laura Freire
Você tem se tornado aos poucos uma grande revelação da música no eixo PB-CE e começa trilhando um caminho considerado alternativo. Teus passos na música são, de fato, em direção às tuas paixões? Como tem sido esse começo nos palcos?
Sim, meus passos são em direção às minhas paixões. Estou começando a trabalhar com autorais agora, mas antes já trabalhava com interpretações e arranjos, e sempre busquei colocar minha identidade em tudo que eu levava para os palcos, sempre busquei levar o que eu acredito. E eu provavelmente não estaria na música se fosse pra fazer de outra forma, simplesmente não conseguiria. Esse começo nos palcos tem me proporcionado experiências únicas e maravilhosas. É sempre gratificante terminar uma apresentação e ouvir o feedback das pessoas, saber que consegui tocá-las de alguma forma. Porém, o espaço para artistas considerados alternativos é muito limitado. E como disse antes, eu não conseguiria estar na música de outra forma. Então, é uma vivência que exige lutas diárias.
Esse diálogo entre você e Naldinho é parte do processo de resistência do cenário alternativo. Você acha que você e outros músicos da nova geração têm a “responsabilidade” de manter a cena viva no Sertão?
Com certeza. Acredito que seja responsabilidade de todas as gerações e a minha não fica de fora. O Sertão é riquíssimo em cultura. Aqui falamos especificamente da música, mas também há uma variedade linda no que diz respeito a dança, literatura, cinema, culinária, tudo. E é muito importante que as pessoas da minha geração e também das posteriores tenham essa consciência e não deixem que isso se perca. São fazeres artísticos que contam nossa história e compõem nossa identidade.
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Naldinho me disse, em off, que esse show também pode ser um bom “gatilho” para você explorar mais o seu potencial de compositora e ter mais coragem para mostrar suas canções. Me fala um pouco dessa Laura compositora que eu não conheço.
Olha, concluir músicas é uma experiência bem recente. Eu sempre tive uma mania, e isso já faz alguns anos, de começar a compor e largar no meio do processo. Tenho umas músicas engavetadas e outras que não existem mais nem na memória, provavelmente por autossabotagem. Nos últimos tempos eu decidi finalmente terminar algumas dessas composições, mas não cheguei a publicar. Quando Naldinho me convidou para o show, eu decidi mostrá-las.

Naldinho Braga
Esse dueto com Laura é um encontro de gerações: um cara que já faz parte da mitologia musical da Paraíba com uma promissora revelação. Como é que tem sido essa experiência nova pra você?
Super gratificante poder dividir o palco com jovens que eu vi crescer: Meu filho Pedro Braga, Laura Freire e o irmão dela Artur Freire e mais o Nildo Xavier, primeiro percussionista da banda Tocaia da Paraíba.
Como você lida com a ideia de ser uma das principais referências musicais para uma parte da nova geração da música paraibana?
Muito tranquilo. Mas gostaria mesmo era de ter mais influência entre os jovens de Cajazeiras, pensando no fortalecimento de uma cena autoral além do rock and roll, ou pelo menos despertar um número maior de ouvintes de música autoral e regional. Sei que tem compositores e compositoras na cidade. Esse show também visa abrir as portas para aparecerem nos palcos.
Você conhece como poucos os bastidores da correria para conseguir apoio para produzir arte (música nesse caso) e todos os seus meandros, as panelas, politicagens e segregações. Que dica você dá pra nova geração?
Primeiro produzir com respeito ao trabalho. Tornar o seu produto artístico apresentável. Depois é ir dando as caras; explorar as redes sociais com inteligência; ocupar espaços na cidade, de modo que vai conquistando o gosto popular, partindo do local, de dentro para fora, mesmo sabendo que a valorização acontece quando vem de fora para dentro. E seria lindo se as rádios locais abraçassem a arte local.